Lénine, o jornal do partido e a imprensa da burguesia

por Fernando Correia

«Os capitalistas […] chamam “liberdade de imprensa” à supressão da censura e à possibilidade para todos os partidos de editar jornais à sua vontade. […] «Na realidade, é não a liberdade de imprensa, mas a liberdade de os ricos, da burguesia, enganarem as massas populares oprimidas e exploradas.» (1)

Com o derrubamento do czarismo e o estabelecimento das liberdades públicas e o fim da censura, a Revolução de Fevereiro de 1917 instaurou na Rússia um regime democrático-burguês que deixava praticamente intactas as estruturas essenciais do absolutismo. Socialistas-revolucionários e mencheviques (2) conluiados com a burguesia no poder, alinhavam com esta na apologia de uma democracia formal que se limitava a continuar por novas formas a opressão e a exploração anteriores. No sector da imprensa isso também era visível.

Escreve Lénine: «A edição de um jornal é um grande e lucrativo empreendimento capitalista, no qual os ricos investem milhões e milhões de rublos. Na sociedade burguesa, a “liberdade de imprensa” é a liberdade, para os ricos, de zombar, de perverter, mistificar sistematicamente, sem cessar, quotidianamente, por intermédio de milhões de exemplares, os pobres, as massas populares exploradas e oprimidas.» (3)

Apontando a publicidade inserida em grandes quantidades nestes jornais como a sua grande fonte de lucros, o que permitia aos proprietários ganharem dinheiro e, ao mesmo tempo, «vender veneno para uso do povo», Lénine interrogava: «Em que é que o “direito” de publicar notícias falsas é melhor do que o “direito” de possuir servos?» (4) (Sublinhado de Lénine.)

À concepção de «liberdade de imprensa» defendida pela burguesia estavam associados determinados métodos de praticar o jornalismo, que constituíam uma esclarecedora concretização daquela concepção. «O procedimento da imprensa burguesa é sempre e em todos os países o mais corrente e o mais “seguramente” eficaz: menti, gritai, berrai, repeti a mentira, “dela ficará sempre alguma coisa”.» Comenta ele no Pravda em Abril de 1917: «Quem “faz grande barulheira” são os capitalistas e a sua imprensa; esforçam-se por abafar a voz da verdade, por impedir que ela seja ouvida, por tudo submergir sob uma torrente de injúrias e vociferações, por pôr obstáculos a uma explicação concreta». (5) (Sublinhados de Lénine.)

Leitor assíduo e atento da imprensa, formulou ao longo dos anos severas apreciações aos conceitos e aos métodos dos jornais propriedade do grande capital. Já anos antes, no Pravda de 1913, escrevera, por exemplo: «As notícias sensacionais são quotidianamente fabricadas pela grande imprensa burguesa, que não faz senão vender por bom preço as informações mais “picantes” e mais “escabrosas”, destinadas precisamente a distrair a atenção das massas das questões realmente importantes e das reais baixezas da alta política». (6)

A importância da imprensa

Entre Lénine e a imprensa estabeleceu-se uma relação natural. Tendo-se apercebido do tipo de relações existentes entre o jornal e o quotidiano das pessoas e da capacidade da imprensa para influir sobre elas e contribuir para a transformação das realidades através da acção de massas, aproveitou e utilizou o jornalismo como instrumento privilegiado para a intervenção (dele e do partido) na prática política e na luta ideológica. Mas em épocas diferentes entendeu a missão da imprensa também de maneiras diferentes. Em 1900, quando se tratava de criar o partido e enraizá-lo na classe operária e nos trabalhadores, apontou para a imprensa do partido uma função que já não seria, em grande parte, a mesma quando depois de Outubro de 1917 o principal objectivo era vencer a contra-revolução, combater os resquícios do passado e construir a sociedade socialista.

O que sempre permaneceu – e por isso ter permanecido é que o resto mudou – foi uma análise baseada em claras posições de classe e a fidelidade ao marxismo enquanto íntima ligação da teoria à prática e da prática à teoria, em permanente e criadora relação dialéctica.

Por exemplo: em dado momento, quais as relações e a força relativa das classes? Quais as formas de que se reveste a luta de classes? Qual a sua tradução na luta ideológica? Qual o reflexo desta na consciência e na acção das massas? Quais as tarefas prioritárias e quais os meios para as concretizar? Como se compreende se tivermos em conta estas interrogações – cuja validade e operacionalidade se mantêm actuais –  Lénine não poderia dar da missão da imprensa (ou da táctica partidária, da política de alianças, etc.) uma definição abstracta, alheia à realidade concreta e às exigências da prática política revolucionária.

A importância que atribuía à imprensa e a atenção que sempre lhe concedeu (atenção essa que, não por acaso, surgiu simultaneamente com os seus primeiros passos na actividade política) resultava fundamentalmente da noção que tinha do decisivo contributo que ela poderia dar à concretização do objectivo essencial: a conquista pelo proletariado da liberdade, da justiça e do progresso para todo o povo, isto é, o derrube do regime absolutista e a construção da sociedade socialista.
Para Lénine não se tratava de tirar à imprensa qualquer pretensa «neutralidade» que ela, por definição e natureza, possuiria, desviando-a e comprometendo-a no combate político e ideológico; tratava-se, sim, de a pôr nas mãos do proletariado ao serviço da luta de classes, tal e qual como a burguesia o fazia em seu próprio proveito, ainda que escondendo essa utilização sob a capa de frases empoladas sobre a «liberdade de imprensa», a «objectividade», a «independência», etc.

«Organizador colectivo»

O Iskra (Centelha) é geralmente considerado não só como o iniciador da imprensa bolchevique mas também como o verdadeiro pioneiro da imprensa comunista e organicamente ligada à vida e à luta do partido. Surgiu em Dezembro de 1900 como o começo da concretização e o instrumento para a defesa de um dos objectivos que nesses anos mais preocupava Lénine: a criação de um jornal político (necessariamente ilegal, devido à opressão e à repressão czaristas) para toda a Rússia, concebido como «uma parte de um gigantesco fole de uma forja que atiçasse cada centelha da luta de classes e da indignação do povo, convertendo-a num grande incêndio» (7).

Lénine era de opinião que para conduzir a luta contra a autocracia se tornava absolutamente necessária a construção de um partido de novo tipo — o partido da classe operária. Nas condições da luta clandestina, numa Rússia imensa onde a dispersão e o espontaneísmo constituíam poderoso entrave à luta organizada de massas, tal objectivo, segundo ele, só seria possível de alcançar através da publicação de um jornal único que saísse regularmente e unificasse sob uma mesma bandeira ideológica e organizativa os diversos grupos locais.

Tal como o partido, também o jornal seria de um novo tipo. Escreveu ele, recorrendo a uma imagem que se tornou clássica: «A função do jornal não se limita […] a difundir ideias, a educar politicamente ou a ganhar aliados. O jornal é não só um propagandista colectivo e um agitador colectivo, mas também um organizador colectivo. Neste último caso, pode comparar-se com os andaimes colocados num edifício em construção, que marcam os seus contornos, facilitam o contacto com os diversos grupos de operários, ajudando-os a distribuir as tarefas e a perspectivar os resultados obtidos graças a um trabalho organizado.» (8)

Encontrava-se então no exílio e era ao mesmo tempo a alma e o corpo do Iskra, nele desempenhando todas as tarefas – nomeadamente a de autor, tendo colaborado praticamente em todos os números. Em torno do jornal foi-se criando uma verdadeira organização, ramificada pelo país, que teve um papel decisivo na estruturação e funcionamento do partido, dando-lhe coesão ideológica e unidade na acção.

Surgido bastante mais tarde, em Maio de 1912, o Pravda, assinala já uma outra etapa da evolução da imprensa e do partido: publicando-se legalmente no próprio país, funcionou, na sua primeira fase, até Julho de 1914, como centro da actividade partidária clandestina. Não obstante nessa altura se encontrar de novo no exílio, Lénine mantinha-se em assíduo contacto com a redacção, em Petersburgo, e na prática era o verdadeiro director, conforme se verifica pela numerosa correspondência por ele enviada e recebida nesse período.

Com a Revolução de Outubro, como vimos, a situação muda radicalmente no país. No lançamento dos alicerces da nova sociedade a imprensa continua a ocupar um lugar considerado insubstituível. Um dos princípios por ele defendidos para a imprensa partidária era a necessidade de uma grande participação no seu conteúdo do maior número possível de trabalhadores, devidamente organizada num amplo movimento de correspondentes operários e camponeses. Ao contrário do Iskra, o Pravdajá não tinha como objectivo a formação do partido nem se destinava essencialmente aos núcleos de revolucionários: dirigia-se às grandes massas, procurando tornar-se para elas um pólo de atracção.

Entretanto, continuaram a não faltar oportunidades nem motivos a Lénine para por diversas vezes retomar a sua teorização sobre a falsa liberdade da imprensa burguesa, contrapondo a esta a nova imprensa saída da revolução — uma realidade que nascia e se consolidava, não obstante todos os obstáculos, incluindo os motivados pela dificuldade em cortar radicalmente com os métodos e as concepções do passado.

Lembrando, no decorrer do I Congresso da Internacional Comunista (1919), que uma das principais palavras de ordem da «democracia pura» defendida pela burguesia era a «liberdade de imprensa», Lénine acentua que «os operários sabem […] e os socialistas de todos os países reconheceram-no milhões de vezes, que esta liberdade é um logro enquanto as melhores tipografias e as grandes reservas de papel se encontrarem nas mãos dos capitalistas e enquanto existir o poder do capital sobre a imprensa, que se manifesta em todo o mundo tanto mais clara, nítida e cinicamente quanto mais desenvolvidos se encontrarem a democracia e o regime republicano, como, por exemplo, na América. […] Os capitalistas sempre chamaram “liberdade” à liberdade de obter lucros para os ricos, à liberdade dos operários de morrerem de fome. Os capitalistas chamam liberdade de imprensa à liberdade dos ricos subornarem a imprensa, à liberdade de utilizar a riqueza para fabricar e falsificar a chamada opinião pública. Os defensores da “democracia pura” também se revelam de facto defensores do mais imundo e venal sistema de domínio dos ricos sobre os meios de educação das massas, revelam-se embusteiros que enganam o povo e que, com frases bonitas, pomposas e falsas até à medula o desviam da tarefa histórica concreta de libertar a imprensa da sua subjugação ao capital.» (9)

Um jornal sem papel e sem distâncias”

A importância que Lénine dava à informação enquanto forma de intervenção social leva-o a estar atento às inovações e avanços neste domínio, como era o caso da rádio que nas primeiras duas décadas do séc. XX dava passos decisivos para se tornar o segundo (a seguir à imprensa) grande meio de comunicação de massas.

Conhecedor do êxito das investigações do cientista soviético Bonch-Bruievich no laboratório de Nizhni-Novgorod, que considerava de «gigantesca importância», envia-lhe uma mensagem (Fevereiro de 1920) em que expressa «o profundo agradecimento e simpatia por motivo do grande trabalho que está a levar a cabo», sublinhando: «Esse jornal sem papel e “sem distâncias” que está criando será algo de grandioso. Para este trabalho e outros parecidos lhe prometo toda a cooperação em todos os aspectos.» Em Janeiro de 1922, e respondendo a um pedido de reforço de subsídio ao laboratório, solicita aos membros do Bureau Político «que tenham em conta a excepcional importância do dito laboratório, os grandes serviços prestados e os imensos benefícios que trará num futuro próximo, tanto no aspecto militar como no da propaganda». (10)

A Rádio Moscovo começa a emitir em 1922, no fim da década também em alemão, francês e inglês e nos anos seguintes com emissões especiais para mais de cinco dezenas de países, incluindo Portugal.

Notas

(1) V. I. Lénine, «Como assegurar o êxito da Assembleia Constituinte? (A propósito da liberdade de imprensa)», Oeuvres, Éditions sociales – Éditions du Progrès, Paris – Moscou, 1977, t. 25, p. 409.

(2) Socialistas-revolucionários: partido pequeno-burguês cujos dirigentes, depois da revolução de Fevereiro, fizeram parte do Governo Provisório, vindo mais tarde a opor-se frontalmente ao poder soviético. Mencheviques: representavam a facção minoritária entre os comunistas (daí o seu nome, em contraposição aos bolcheviques, maioritários, segundo as palavras correspondentes em russo), tendo também participado no Governo Provisório.

(3) Id., ibid.

(4) V. I. Lénine, «O cartel da mentira», Oeuvres, t. 24, p. 112.

(5) Id., ibid.

(6) «A política internacional da burguesia», Oeuvres, t. 36, pp. 217-218.

(7) V. I. Lénine, «Que Fazer?», in Obras Escolhidas em seis tomos, Edições «Avante!» – Edições Progresso, Lisboa – Moscovo, 1984, tomo I, p. 200.

(8) V. I. Lénine, «Por onde começar?», in Oeuvres, t. 5, p. 19.

(9) V. I. Lénine, «Teses e relatório sobre a democracia burguesa e a ditadura do proletariado» (I Congresso da Internacional Comunista, 2-6 de Março de 1919), Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!» – Edições Progresso, Lisboa – Moscovo, 1979, t. 3, pp. 78-79.

(10) Informação de classe, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1975, pp. 361-367.

Nota final

Neste texto retomamos parcialmente o artigo «A imprensa revolucionária», O Militante, n.º 233, Março/Abril, 1998.

AVANTE! – a voz dos trabalhadores e do povo

por Manuela Pinto Ângelo

Conforme consideram os Estatutos do Partido no seu artigo 69.º: «A imprensa do Partido é instrumento do trabalho de organização, de orientação e formação política e ideológica, de informação e propaganda da sua actividade, de notícia, de reflexão e debate sobre os problemas nacionais e internacionais.»

A imprensa partidária – o Avante! e O Militante – constituem, assim, instrumentos essenciais e insubstituíveis na vida e actividade do Partido.

Cada um por si e em conjunto desempenham um papel fundamental, quer na divulgação das opiniões, análises e orientações do Partido em matérias de âmbito nacional e internacional, na troca necessária e útil de experiências, na batalha de ideias, na elevação da consciência de classe e política, na formação, mobilização e ajuda aos militantes visando a sua intervenção no esclarecimento, na crítica ao capitalismo e à sua natureza exploradora, opressora, agressiva e predadora, na informação com verdade, na valorização das lutas dos trabalhadores e dos povos que se travam em Portugal e no mundo, quer para o reforço orgânico do Partido e para a sua influência junto dos trabalhadores e das populações.

Neste quadro, o alargamento da sua divulgação, da sua leitura e estudo pelos militantes comunistas e a sua difusão e venda junto das massas trabalhadoras são factores decisivos para o aumento da capacidade de intervenção do Partido e da sua influência social, política e eleitoral.

No quadro actual marcado por uma profunda e inquietante desinformação, pelo silenciamento, diminuição ou deturpação das posições do Partido e das lutas dos trabalhadores, a imprensa do Partido, em particular o Avante!, assume uma importância relevante e insubstituível no âmbito da informação e do esclarecimento político e ideológico.

Face à intensa campanha ideológica desencadeada pelo grande capital que tem ao seu dispor poderosíssimos meios de difusão da sua ideologia, desde logo o domínio da esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social, que servem os seus interesses, a difusão e leitura do Avante! é cada vez mais necessária para a compreensão real dos problemas com que os trabalhadores e os povos estão confrontados.

O Avante! é o jornal que informa com verdade o que «as televisões não mostram, as rádios não falam e os jornais não escrevem», afrontando a ofensiva ideológica que, no quadro do agravamento da crise estrutural do capitalismo, tem como objectivo perpetuar as posições dominantes dos grupos económicos e financeiros e das forças e interesses que os representam visando: «Apresentar o capitalismo como sistema para o qual não há alternativa; divulgar concepções reaccionárias e obscurantistas de carácter  fascista  e fascizante, de combate à liberdade e à democracia, de promoção de guerras, de justificação e defesa dos crimes do imperialismo; justificar e procurar legitimar as concepções e ingerências da União Europeia e o condicionamento da soberania nacional; branquear o fascismo e agudizar o anticomunismo; desvalorizar a luta dos trabalhadores e dos povos; difundir a resignação, o conformismo e o individualismo; promover a divisão dos trabalhadores e a colaboração de classes; insistir na inevitabilidade do agravamento da exploração da retirada de direitos e do retrocesso social e civilizacional.» (Resolução Política do XX Congresso do PCP)

O Avante!, órgão central do Partido Comunista Português, desempenha, portanto, um papel fundamental para que os trabalhadores e o povo possam conhecer e compreender o projecto, as propostas, as posições e análise do nosso Partido.

O Avante!, na sua longa história de 86 anos de vida, desempenhou um papel ímpar na imprensa portuguesa, honrando o fim para que foi criado, assumindo um papel determinante e permanente no combate político e ideológico e na afirmação do projecto e ideal comunistas. Foi assim nos tempos difíceis do fascismo, contribuindo para o seu derrube. E foi assim a voz da Revolução de Abril e das suas conquistas.

Foi e é o órgão central de um Partido que hoje intervém na nova fase da vida política nacional pela defesa, reposição e conquista de direitos, pela ruptura com a política de direita e pela concretização de uma política patriótica e de esquerda, componente indissociável da luta pela democracia avançada vinculada aos valores de Abril, pelo socialismo e o comunismo.

É neste quadro que a intervenção e iniciativa do Partido se tem de desenvolver utilizando de forma integrada todos os meios disponíveis, nomeadamente a imprensa do Partido, em particular o Avante!, que no âmbito das medidas de reforço orgânico tem de merecer redobrada e permanente atenção de todo o colectivo partidário.

Foi tendo presente esta necessidade que o Comité Central, na sua reunião de 8 de Novembro de 2015, decidiu realizar uma «Campanha Nacional de Difusão do Avante!» que se prolongou até Março do corrente ano, inserida na acção geral de reforço do Partido, com o objectivo de alargar a divulgação e venda do órgão central do Partido junto da classe operária e de todos os trabalhadores nas empresas e locais de trabalho, junto dos reformados, dos micro, pequenos e médios empresários, agricultores, dos intelectuais e quadros técnicos, das mulheres, dos jovens e de um modo geral das classes antimonopolistas a quem o Avante! dá voz e cujos interesses e direitos defende.

Sendo verdade que o alargamento da difusão do nosso jornal é uma tarefa permanente, que não se esgota, que tem de estar sempre presente na acção quotidiana das organizações e de todos os militantes, a campanha permitiu ultrapassar dificuldades, rotinas e insuficiências evidentes que se vinham a manifestar e elevar o empenhamento das organizações nesta tão importante direcção de trabalho para o reforço do Partido e que tem de merecer outra atenção na acção e actividade partidária.

No desenvolvimento da campanha, suportada em diversos materiais de afirmação, todas as organizações definiram, no quadro do objectivo geral, as suas metas. Alargou-se a discussão, o que contribuiu para aumentar a compreensão sobre a importância da leitura e estudo do Avante! e do seu papel na ligação do Partido às massas, meio de contacto permanente com os seus militantes, simpatizantes e outros democratas e factor de alargamento da sua influência e prestígio.

A questão central que se colocou, e que permanece válida, era a de ampliar o número de compradores e leitores regulares do Avante! e alargamento do número de camaradas que fazem a sua distribuição.

O balanço é positivo. Finalizada a campanha há, em número significativo, mais militantes e amigos do Partido que passaram a comprar semanalmente o Avante! e responsabilizaram-se mais camaradas pela importante tarefa, dizemos mesmo a importantíssima tarefa, de os contactar todas as semanas para lhes fazer chegar o jornal.

A campanha evidenciou e confirmou de forma clara enormes potencialidades e a existência de um vasto campo de afirmação e expansão para a difusão do Avante!.

A campanha chegou ao fim. Mas não terminou a necessidade de prosseguir os esforços, com determinação, persistência e militância, visando levar sempre e sempre mais longe o órgão central do Partido.

Neste sentido, é preciso consolidar e prosseguir a concretização de linhas de trabalho que permitam fazer chegar o Avante! a muitos mais militantes de modo particular a todos os novos militantes, a mais trabalhadores e ao povo, nas empresas, locais de trabalho e nas ruas.

A experiência mostra que é fundamental, do ponto de vista de direcção, assumir que, no conjunto das inúmeras tarefas que permanentemente temos de realizar, a difusão do Avante! não é mais uma dificuldade, antes pelo contrário, como afirmou Lénine: «O jornal é não só um propagandista colectivo e um agitador colectivo, mas também um organizador colectivo», constituindo assim uma ajuda inestimável à acção e reforço do Partido.

É, pois, necessário levar mais longe a discussão que tem de ser regular e acompanhada do efectivo controlo de execução das decisões que se tomam, para continuar a alargar a difusão do Avante!.

É necessário continuar a fazer o levantamento de potenciais leitores regulares, fora e dentro do Partido, com prioridade para os quadros de direcção, para os militantes e amigos que diariamente trabalham nos sindicatos e comissões de trabalhadores, nas autarquias, comissões de utentes, definindo no imediato quem fica responsável por cada um dos contactos.

Prosseguir o alargamento do número de camaradas responsáveis pela difusão do Avante! junto dos militantes e simpatizantes, valorizando a tarefa, dando a ajuda necessária para o seu desenvolvimento com vista a ganhar novos leitores regulares.

Assumindo a organização partidária como elemento fundamental para o aumento da difusão do Avante!, é preciso, tendo em conta a realidade de cada organização, continuar a reflectir como tornar mais vasta a rede de distribuição, com mais pontos de distribuição e recepção da imprensa (as designadas ADE), aproximando o jornal de mais empresas, locais de trabalho, freguesias e bairros.

Nesta dinâmica de aproximação do Avante! aos trabalhadores e às populações é importante dinamizar de forma mais regular e inovadora a sua promoção pública com a realização de bancas e outras acções.

As vendas especiais do Avante! associadas ao tratamento de assuntos da actualidade e de particular relevo, são uma experiência muito positiva para a difusão do jornal e para o combate das ideias, pelo que devem ser ainda mais potenciadas.

A Festa do Avante!, festa de Abril, do povo e da juventude tem de continuar a ser potenciada como espaço privilegiado para a divulgação e venda do jornal que lhe deu o nome. A experiência muito positiva vivida na Festa de 2016, com a edição de um número especial, e que vai ter continuidade na Festa deste ano, tem de ser ainda mais e melhor aproveitada.

No quadro dos meios e possibilidades existentes é necessário prosseguir o esforço que tem sido feito para fortalecer a capacidade de elaboração, aprofundamento e diversificação de conteúdos e tratamento de questões de actualidade.

Estreitar a colaboração e a articulação com as organizações do Partido, através do envio de informações, sugestões e notícias sobre questões partidárias, laborais ou sociais, permite a melhoria global do conteúdo do jornal e torna-o ainda mais o espelho da intervenção e actividade partidária, permitindo uma diversidade muito enriquecedora. Melhorar o conteúdo e facilitar a leitura do Avante! são objectivos permanentes. O papel e contribuição das organizações e de cada militante na concretização destes objectivos são muito importantes para ter um jornal cada vez melhor.

O novo grafismo do Avante!, implementado em Março, constitui um novo esforço para uma melhor leitura e maior valorização dos seus conteúdos e imagens, valorizando o seu papel de dar voz à luta dos trabalhadores e do povo.

A difusão do Avante! em papel é um meio privilegiado no contacto directo e semanal com os milhares de membros e amigos do Partido e é para aí que têm de estar direccionados os nossos esforços, não desprezando a presença do Avante! na internet, cujo sítio – www.avante.pt – está neste momento em reformulação com o intuito de melhorar o seu aproveitamento e as potencialidades que esta ferramenta permite na divulgação do Avante!, levando mais longe a voz do PCP.

A intervenção do Partido, assente no papel decisivo da organização partidária e tendo como elemento principal a luta de massas, à qual se associa a luta institucional, exige o aproveitamento articulado de todos os meios e instrumentos.

Levar mais longe o Avante!, instrumento de reforço do Partido, esclarecimento político e ideológico, unidade e luta é tarefa de todas as organizações e de todos os comunistas.

Jerónimo de Sousa –É necessário e possível levar mais longe o Avante!

Em jeito de balanço do caminho percorrido até aqui, Jerónimo de Sousa garantiu que o Avante! «tem a honra de poder afirmar que, na sua longa vida, cumpriu o seu papel de jornal de classe e arma insubstituível do PCP ao serviço dos trabalhadores e do povo». Tal só foi possível, garantiu, porque nunca se deixou «submeter ou intimidar pelo terror da ditadura fascista ou pelas muitas tentativas de silenciamento por parte da ideologia e dos poderes dominantes».

(…)

Passando em revista a história do Avante! desde a sua fundação, em 1931, e até aos dias de hoje, o Secretário-geral do Partido destacou o papel ímpar hoje desempenhado pelo jornal do PCP enquanto «porta-voz da ruptura com a política de direita e por uma alternativa patriótica e de esquerda, componente indissociável da luta por uma democracia avançada com os valores de Abril no futuro de Portugal, a luta pelo socialismo e o comunismo». Pela sua importância, é necessário levá-lo mais longe, realçou Jerónimo de Sousa, questionando: «que fazer na nossa organização para fazer chegar o Avante! a muitos mais militantes? Como fazê-lo chegar, de modo particular, aos novos militantes? Como fazer chegar o Avante! aos trabalhadores e ao povo, nas empresas, locais de trabalho e nas ruas? Como promover a divulgação do Avante! aumentando o seu prestígio e influência social e política, e o prestígio e influência social e política do Partido?» Uma coisa é certa, garantiu: «ouvindo quem está com a “mão na massa” tira-se uma conclusão segura. É possível aumentar a venda do Avante!.».

(Notícia sobre a intervenção do Secretário-geral do PCP, no Encontro de Quadros da ORL no 85.º aniversário do Avante! e início da campanha nacional de difusão do Avante!– Avante!, n.º 2151, de 19 de Fevereiro de 2015).

Há 80 dias no ar, Marxismo21 divulga o pensamento revolucionárioUm motivo para comemorar.

Há 80 dias no ar, Marxismo21 divulga o pensamento revolucionárioUm motivo para comemorar.

O blog Marxismo21, editado por intelectuais marxistas brasileiros, chega aos seus 80 dias, já alcançando amplitude e significativa dimensão.
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História do Livro “Os dez dias que abalaram o mundo”

História do Livro “Os dez dias que abalaram o mundo”

“Os dez dias que abalaram o mundo”, livro escrito por John Reed, se tornou um verdadeiro clássico. Sabendo-se que Reed presenciou a Revolução que colocou Lênin no poder na Rússia, percebe-se que o texto que narra o desenrolar dos fatos que culminaram na deposição do governo Menchevique tem corpo e alma.

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O Jornal “O ALARME” primeiro porta-voz do PCP

O Jornal “O ALARME”
primeiro porta-voz do PCP*


Ignoramos como em concreto vieram a passar-se as coisas e, de qualquer modo, não temos notícias de que hajam estado representantes de Coimbra nas reuniões que em Lisboa vieram a conduzir à formação do Partido. E tudo indica que não.

Mas é curioso assinalar que, tal como alguns dos futuros primeiros comunistas de Coimbra, os próprios que em Lisboa organizaram a criação do Partido, ou pelo menos parte deles, também não deixavam de se reclamar de Kropotkine, cuja morte, acabada de ocorrer e conforme outros autores já assinalaram, suscistou a apresentação de «um voto de sentimento» por um dos participantes na mesma reunião em que foram «aprovadas entre grande entusiasmo» as suas «bases orgânicas» e que se realizou em 1/3/1921.

De qualquer modo, afigura-se que, além do apoio de alguns comunistas libertários já anteriomente indicados, terão sido também dissidentes socialistas que, em Coimbra, apareceram pela primeira vez em público, e por escrito, depois que o novo Partido foi fundado, a apoiar e a integrar-se no PCP.

Com efeito, em Junho de 1921, formou-se o Grupo Socialista Acção Livre, que anunciava concorrer às próximas eleições legislativas, como sucedeu, propondo para deputado o operário gráfico António Tavares e para senador Eduardo Soares Catita.

E com a data de 17/7/1921, exactamente uma semana após a realização daquelas eleições, publicava-se o nº 1 do jornal O Alarme, com redação e administração provisórias no Beco do Amorim, nº 3, apresentando-se como quinzenário e «porta-voz» daquele grupo. O seu redactor principal era A. Tavares, necessariamente o mencionado operário gráfico, e o editor era Raúl Fernandes da Piedade.

Não sabemos quem fosse exactamente aquele António Tavares, mas é bem provável que se trate do mesmo que em 1914 editava A Batalha Anarquista, e editava e dirigia A Revolta, ambas de orientação anarco-comunista como já dissemos.

Quanto a Raúl da Piedade, fora igualmente, em 1919, o editor e secretário de redacção do jornal A Voz Socialista, «orgão do Partido Socialista da região de Coimbra», de que sairam cinco números em que, nomeadamente, se defendia a «Revolução Social» (e até a revolução russa e o «bolchevismo») e em toda a primeira página do nº 1, publicado intencionalmente em 18 de Março, comemorava a Comuna de Paris, que qualificava de «o farol luminoso do proletariado».

O Alarme era um jornal de conteúdo e formato modestos (cerca de 16 x 24 centímetros), com oito páginas.

Na primeira desse nº 1, e em letras algo garrafais, saudava «o proleteriado organiazdo» e «os trabalhadores de todo o Mundo», protestava energicamente contra as prisões arbitrárias do mesmo proletariado e gritava «Viva a Revolução Social» – uma palavra de ordem então corrente, tanto para comunistas como para anarquistas e socialistas, e cuja realização se acreditar estar para breve.

Além de vários artigos soltos e outro tipo de colaboração, incidindo nomeadamente na política e em acontecimentos locais, comentava em fundo, na página 2, o seu fraco resultado eleitoral de apenas nove votos em cada um dos seus candidatos, conforme a imprensa noticiosa informara.

Considerando já previsivelmente favorável aos republicanos tal resultado, o grupo dizia, contudo, ter sido «atraiçoado peles socialistas locais», que, também não tendo apresentado qualquer outra lista própria, «auxiliaram os partidos burgueses».

Afirmando «Não somos bolchevistas! Somos socialistas revolucionários!», mostravam afinal, e é sabido quanto a pressão do primeiro destes adjectivos era, na época, socialmente grande. E anunciava ainda que, embora poucos, continuavam na «propagande em prol do Socialismo, que transformará esta sociedade para fazer baquear a exploração do homem pelo homem».

Entretanto, uma pequena nota intitulada «Partido Comunista Português», na página 3, saudava o seu recente e «vibrante manisfesto ao país» e os seus fundadores, prometendo dele falar mais detalhadamente no número seguinte e concluindo: «Avante, Camaradas!».

E assim é que, mantendo no essencial as demais características, os dois restantes números publicados, em 31/7/1921 e 15/8/1921, ostentavam já no cabeçalho: «Porta-voz do “Partido Comunista Português” – Secção de Coimbra». O nº 3 anunciava mesmo, na página 3, «uma transformação» para o quarto número, porém e segundo supomos, nunca chegou a ser publicado. Mas os que o foram ficaram sem dúvida a constituir, à escala nacional, o primeiro orgão de que o Patido dispôs na imprensa.

Incluem vários artigos já explicitamente partidários, inclusive da Redacção.

Por exemplo, na página 5 do nº 2, H. Caetano de Sousa, na época secretário da Junta Nacional do Partido (o seu «mais alto corpo executivo», conforme a base orgânica 16ª), explicava o aparecimento e o papel dos partidos comunistas, apresentando em especial o PCP como «lançado por um grupo audaz de anarquistas, sindicalistas revolucionários e socialistas da extrema esquerda», propondo-se a então adoptada fórmula da «ditadura do proletariado», por ela lutando «desembaraçados das velhas improfícuas tácticas já falidas», através das «reivindicações sociais» e visando encarar a «estrada infinita de uma nova civilização».

E, dividido pelos dois números, na página sete de cada um, era parcialmente publicado o próprio «projecto das bases orgânicas» do «novo agrupamento», as quais são hoje perfeitamente conhecidas através da sua inserção em jornais do tempo e em livro já publicado após o 25 de Abril.

Merece ainda destaque um artigo de José da Silva Oliveira publicado nas páginas 4 e 5 do nº 3.

Posicionando-se sem dúvida como anarquista, mas membro e defensor do Partido, tal como já o fizera nas páginas da Bandeira Vermelha, expunha uma curiosa distinção entre «anarqiustas práticos e anarquistas lunáticos», estes últimos assim denominados porque teriam afirmado que «não se importavam que a revolução se fizesse no ano 3000!…». Discutia afinal a questão dos « métodos de luta», em termos de «praticabilidade» das teorias ou, segundo os últimos afirmariam, de que «o povo não está preparado». Mas advertia que tal «conflito» político «não tem a ver no terreno sindical», acautelando assim a defesa da linha unitária do Partido quanto à acção sindical, expressa nas suas bases orgânicas.

* Alberto Vilaça, Para a História Remota do PCP em Coimbra (1921-1946).
Edições «Avante!», Lisboa, 1997.
No presente extracto foram suprimidas as notas de rodapé.


«O Militante» Nº 228 de Maio/Junho de 1997