A Globo e as raízes do subdesenvolvimento do futebol brasileiro

Os bravos jornalistas da CBN foram rápidos no gatilho: os 7 x 1 da Alemanha comprovam que a presidente Dilma Rousseff é “pé frio”.

Pé frio é bobagem. Não é o que dizem de Galvão Bueno?

Como são analistas sofisticados, da política e da economia, poderiam afirmar que Dilma talvez seja culpada – assim como Lula, Fernando Henrique Cardoso e outros presidentes – por não ter entrado na batalha pela modernização do futebol brasileiro.

Poderiam ter avançado mais no diagnóstico. Explicado que a maior derrota do futebol brasileiro – e latino-americano em geral – estava no fato de que a maioria absoluta dos seus jogadores serem de times europeus, da combalida Espanha, da Alemanha, Inglaterra e França.

Ali estaria a prova maior do subdesenvolvimento do futebol brasileiro, um mero exportador de mão-de-obra para o produto acabado europeu, campeonatos riquíssimos mesmo em períodos de crise.

Mas a questão principal é quem colocou na copa da árvore o jabuti do subdesenvolvimento futebolístico brasileiro.

Se quisessem aprofundar mais, poderiam mostrar conhecimento e erudição esportiva reportando-se a uma tarde de julho de 1921, em Jersey City,  quando surgiu o primeiro Galvão Bueno da história, o locutor J. Andrew White, pugilista amador, preparando-se para narrar a luta história de Jack Dempsey vs George Carpentier para a Radio Corporation of America (RCA). 61 cidades tinham montado seus “salões de rádio” para um público estimado em centenas de milhares de ouvinte.

O que era apenas um hobby de radio amadores, tornou-se, a partir de então, o evento mais prestigiado nas radio transmissões.

Se não fosse cansar demais os ouvintes da CBN, os brilhantes analistas poderiam historiar, um pouco, a importância das transmissões esportivas para o que se tornaria o mais influente personagem do século no mercado de opinião: os grupos de mídia.

Mostrariam como foram criadas as redes, desenvolvidas as grades de programação, planejados os grandes eventos, como âncoras centrais da audiência.

Depois, avançariam nos demais aspectos dos grupos de mídia.

Num assomo de modéstia, reconheceriam que, em um grupo de mídia, a relevância do jornalismo é diretamente proporcional à audiência total; e a audiência depende fundamentalmente desses eventos âncora. Por isso mesmo, foi o futebol que garantiu o prestígio e a influência do jornalismo.

Não se vá exigir que descrevam a estratégia da Globo para tornar-se o maior grupo de mídia do Brasil e da América Latina. Mas se avançassem lembrariam que os eventos consolidadores foram o carnaval carioca e o futebol, pavimentando o caminho das novelas e do Jornal Nacional.

Algum entrevistado imprevisto, especialista em segurança, ou na sociologia do crime, poderia lembrar que, para conseguir o monopólio de ambos os eventos, a grande Globo precisou negociar, numa ponta, com os bicheiros que dominavam a Associação das Escolas de Samba do Rio; na outra, com os cartolas que desde sempre dominavam a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), desde os tempos em que era CDB (Confederação Brasileira dos Desportos).

Para não pegar mal para a Globo, diria que a grande emissora foi vítima do anacronismo da sociedade brasileira, que a obriga a entrar no pântano sem se sujar.

Aos ouvintes ficariam as conclusões mais pesadas.

Graças ao submundo dos bicheiros e cartolas, a Globo venceu a competição na radiodifusão. E graças àGlobo, bicheiros e cartolas conquistaram um enorme poder junto à superestrutura do Estado brasileiro, um extraordinário jogo de ganha-ganha em que o sistema bicheiros-Globo e cartolas-Globoganharam uma expressão política inédita e uma blindagem excepcional. Ainda mais se se considerar que o primeiro setor vive da contravenção e o segundo está mergulhado até a raiz do cabelo nos esquemas internacionais de lavagem de dinheiro, através do comércio de jogadores.

Aí a matriz de responsabilidades começa a ficar um pouco mais clara.

Um especialista em direito econômico poderia analisar o abuso de poder econômico na compra de campeonatos e os prejuízos ao consumidor, com a Globo adquirindo a totalidade dos campeonatos e transmitindo apenas parte dos jogos.

Para tornar mais ilustrativo o episódio, poderia se reconstituir a tentativa da Record de entrar no leilão e a maneira como a Globo cooptou diversos clubes, adiantando direitos de transmissão para impedir o avanço da concorrente. Ou, então, as tentativas de dirigentes mais modernos de se livrar do jugo da CBF. E como todos foram esmagados pelo poder financeiro da aliança CBF-Globo.

De degrau em degrau, de episódio em episódio, se chegaria ao busílis da questão, o bolor fétido que emana da CBF e que até hoje impediu que, no país do maior público consumidor, aquele em que o futebol é a maior paixão popular, o evento que mais vende produtos, mais galvaniza a atenção, não se consiga desenvolver uma economia esportiva moderna.

Completado o raciocínio, o distinto público da CBN entenderia os motivos do Brasil ser um mero exportador de jogadores, os clubes brasileiros serem arremedos de clube social, o fato de grandes investidores jamais terem ousado investir no evento esportivo de maior penetração no mundo, de jamais termos desenvolvidos técnicas em campo à altura do talento dos jogadores brasileiros.

A partir dai, ficaria claro as razões do subdesenvolvimento brasileiro e, forçando um pouco a barra, até a derrota de 7 x 1 para a Alemanha.

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Um calendário de Bom Senso para o futebol brasileiro

Estávamos no ano de 1.989 e eu, com 19 anos e cursando a faculdade de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro, escrevi meu primeiro trabalho sobre o calendário do futebol brasileiro. Era um trabalho sobre diversos assuntos relativos ao futebol, dentre os quais o indecente calendário de nosso futebol era o principal. Utilizei os escritos como equivalentes a uma monografia final de curso.

Passados quase 25 anos, o sentimento era de tristeza, muita tristeza, pois percebia que nada de essencial mudava no calendário do futebol brasileiro. Escrevi cinco livros a respeito (em 2.000, 2.001, 2.002, 2.009 e 2.011), fui solicitado pela Imprensa para falar a respeito, dei razoável número de entrevistas, escrevi dezenas de artigos opinativos em mídias consagradas, muitos elogiaram os livros, alguns criticaram. Mas, mudanças no cenário, nada muito digno de registro.

Já desiludido, e conformado com a ideia de que nada mudaria, ao final de 2.012 fui convidado para fazer parte de um grupo de pessoas ligadas à gestão do futebol, que se denominou Futebol do Futuro. Era um grupo com quase 20 profissionais da gestão no futebol, que se propunha a fazer uma consultoria gratuita para os entes do futebol brasileiro, sobre como fazer prosperar a atividade (mais detalhes em www.futeboldofuturo.net). Trabalhamos, com afinco, em três assuntos centrais: técnicas para a melhoria do jogo, gestão no futebol (o que incluía tanto aspectos de marketing, como aspectos financeiros) e, obviamente, melhorias para o calendário do futebol brasileiro.

Fiquei encarregado de escrever as três propostas alternativas do grupo ao pífio calendário atual de nosso futebol.

Pouco depois, em 2.013, surgiu um movimento que sacudiu o futebol brasileiro: O Bom Senso Futebol Clube. Também fui convidado a ser colaborador do grupo de jogadores, quanto a assuntos relativos ao calendário, e, assim, ajudei a desenhar a proposta do grupo.

Então, ao longo dos anos de 2.013 e 2.014, ajudei a construir quatro propostas de calendário para o futebol brasileiro: As três do Futebol do Futuro e a do Bom Senso Futebol Clube.

Me sinto honrado de ter participado de tais experiências e acredito que, em todos os casos, construiu-se propostas muitíssimo melhores, mas muito melhores mesmo, do que se tem no calendário do futebol brasileiro atual.

A despeito disso, minha proposta predileta não é nenhuma das quatro que ajudei a desenhar.

No trabalho que fiz para o Bom Senso Futebol Clube, minha alçada de decisão não era tão ampla. Não estou me queixando disso: Se o movimento é do grupo de jogadores, a proposta tem que ser deles, não minha. Meu papel era o de dar contornos mais específicos ao que era decidido de forma mais genérica. As grandes ideias foram a criação de Copas Estaduais no lugar dos Campeonatos Estaduais, enxugando-se o calendário, e a criação de cinco séries para o Campeonato Brasileiro, permitindo a ocupação de todos os clubes profissionais ao longo do ano inteiro.

Diga-se, de passagem, que as lideranças do Bom Senso Futebol Clube são muito abertas a sugestões e, assim, muitas vezes, o que propus acabou sendo aceito pelo grupo. Outras vezes, isso não aconteceu. Como deveria ser: Sou colaborador do projeto, não dono do projeto.

Tenho certeza que meus amigos do Bom Senso Futebol Clube estão abertos a analisar propostas que julguem aceitáveis. E escrevo este documento para lhes trazer uma reflexão a respeito – que, tenho certeza, é bem-vinda.

No Futebol do Futuro, também tive autonomia para defender o que julgava apropriado, amplamente. Mas sempre tive ciência que, ali, meu papel era redigir o que o grupo decidisse, e não fazer valer minha proposta, para o grupo endossá-la. Quando fazemos parte de uma equipe, temos que jogar de acordo com o que a equipe deseja, e nos adaptarmos a ela.

O grupo Futebol do Futuro decidiu trabalhar com três cenários alternativos de calendário, independentemente se com adequação, ou não, ao calendário do futebol europeu. Em um dos cenários, os Campeonatos Estaduais passavam a ser divisões menores do Campeonato Brasileiro, jogados simultaneamente a estes. Em outro cenário, os Campeonatos Estaduais eram mantidos, mas apenas com dez datas. Em mais um cenário, os Campeonatos Regionais é que tinham dez datas, com os Campeonatos Estaduais sendo divisões menores destes.

Os amigos do Futebol do Futuro estão abertos a analisar boas propostas e perpassá-las à comunidade do futebol, também confio nisto. Também os convido, assim, a refletirem sobre o que neste documento se propõe.

Fiquei muito honrado por participar de projetos das notáveis Instituições, foram oportunidades profissionais incríveis. Contudo, devo dizer que as quatro propostas de calendário que ajudei a construir são muitos boas, bem melhores do que se tem, mas não são a minha proposta preferida.

Minha proposta preferida é a que eu escrevo no presente livro. Um calendário que, em minha visão, e que gostaria de compartilhar com os leitores desta obra, é a solução para fazer, como eu já dizia em meus livros de 2.009 e de 2.011, os clubes grandes jogarem menos, os clubes pequenos jogarem mais, e todos eles jogaram ao longo de toda a temporada anual.

Independentemente das quatro propostas que ajudei a construir, e de outras que temos à disposição (como as dos meus amigos João Henrique Areias e Amir Somoggi, por exemplo), o calendário do futebol brasileiro continua sendo muito ruim. É acreditando na ideia de que estamos longe de ter um calendário ao menos razoável que escrevo este novo documento. Melhorar é preciso!

Continuo alimentando a esperança de que, algum dia, o futebol brasileiro terá um bom calendário. É na pretensão de ajudar a construí-lo que escrevo este novo livro.

A vida sempre ganha, ainda quando se perde

Autor: Fernando Brito

Ontem, durante uma longa hora de conversa, dediquei-me amenizar o sofrimento  e as ideias de meu filho mais novo.

Amuado, triste, raivoso com os 7 a 1 da Alemanha, não queria nem conversa sobre o assunto.

Dizia que queria destruir os alemães e tudo que fosse alemão.

– Até o cachorro-quente?

– O cachorro quente não é da Alemanha, é dos Estados Unidos.

– Mas a salsicha é da Alemanha…

– Então não como mais cachorro-quente!

– Nem hambúrguer?

E ele, com expressão de espanto e susto, já imaginando a renúncia  ao McDonald’s, mais dolorosa que a do futebol que ele ainda não sabe saborear:

– Hambúrguer não é da Alemanha, esse eu sei que é dos Estados Unidos!

– Não, você lembra daquele navio que nós vimos – e vimos mesmo, um cheio de conteineres entrando na Baía da Guanabara – e você leu Hamburg (Hamburg Sud) escrito nele e me perguntou que se era hambúrguer e eu não te expliquei que era o nome de uma cidade da Alemanha onde tinha sido inventado o hambúrguer? (meio mentira minha, aliás, porque parece que eram os tártaros que esmigalhavam a carne para comê-la)

– É…

Bom, o medo de perder o hambúrguer abriu espaço para a conversa fluir e ele admitir conversar sobre derrotas e vitórias.

E eu lhe perguntei, então, se não havia meninos como ele na Bósnia, tão tristes quanto ele estava agora quando o Brasil sapecou os 3 a 1 do primeiro jogo.

E na África, aqueles meninos-camarõezinhos, pretinhos, já tristes porque seu time ia embora, não sofreram com os quatro gols brasileiros que nós comemoramos.

Os guris do Chile não foram às lágrimas com aquela bola na trave dos minutos finais e, depois, com os pênaltis?

E os garotos da Colômbia, do México, da Austrália, da Espanha, de todos os 28 países que perderam, antes de nós, o direito de sonhar com a taça?

Se o argumento é meio sofrível, ao menos teve a virtude de fazer, de cabeça, 32 menos 4, o que é menos maçante do que aquele chato “arme e efetue” da escola.

Pedro foi amolecendo sua tristeza e revolta, porque percebia, com certa vergonha, o que muita gente grande não consegue compreender: que somos todos seres humanos,essencialmente iguais,  e só por isso temos o privilégio de usar a palavra humanidade, embora tanto dela nos esqueçamos.

Entender que  a dor não é brasileira, não é bósnia, não é costarriquenha ou “belgicana”. E nem branca, preta, nem mulata ou amarela.

É dor, e passa, e cura, e sara.

E estamos prontos para novas alegrias e outras dores, porque é nisso, afinal, que se resume a vida.

Se é que a vida se resume, pois é tão grande e larga que talvez nada a possa conter ou definir, menos ainda a risca de cal de um campo de futebol ou uma bola que suicida seu instante de pássaro em uma rede.

Pedro vai hoje torcer comigo pelos argentinos.

Mas não por vingança dos alemães.

É porque com os garotos da mesma rua  é mais fácil e melhor brincar, jogar, ganhar, perder, brigar e fazer as pazes.

E viver, como nos lembrava de viver o Carlos Drummond de Andrade, depois do massacre que sofremos – mais doído do que este, ainda que com apenas um gol decisivo, porque mais injusto – na bela crônica, que recolho de um post antigo do Blog de Fred Soares, do Sportv:

Perder, Ganhar, Viver

Carlos Drummond de Andrade  (JB, 7/7/1982)

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?

Juca Kfouri diz que Aécio “não está tem aí para os que reduziram o futebol a pó”

Autor: Fernando Brito

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Em seu blog, Juca Kfouri, o comentarista esportivo que já havia trazido a público o constrangedor episódio em que o senador Aécio Neves teria agredido uma mulher  numa festa da Calvin Klein, no Hotel Fasano, no Rio , acusou ontem à noite, em sua coluna, o candidato tucano de combater a ideia de uma ação de Estado para moralizar o futebol brasileiro, tema do qual tratei aqui.

Eis o texto:

“Aécio Neves é amigo de José Maria Marin e o homenageou, escondido, no Mineirão.

Deu-se mal porque o que escondeu em sua página na internet, Marin mandou publicar na da CBF.

Aécio também é velho amigo de baladas de Ricardo Teixeira e acaba de dizer que o país não precisa de uma “Futebras”, coisa que ninguém propôs e que passa ao largo, por exemplo, das propostas do Bom Senso FC.

Uma agência reguladora do Esporte seria bem-vinda e é uma das questões que devem surgir neste momento em que se impõe um amplo debate sobre o futuro de nosso humilhado, depauperado e corrompido futebol.

Mas Aécio é amigo de quem o mantém do jeito que está.

Não está nem aí para os que reduziram nosso futebol a pó.”

Caneladas à parte, é fato que Aécio cultiva relações intensas com a cartolagem do futebol brasileiro, ao ponto de a Folha publicar, em 2010, a satisfação de Ricardo Teixeira, ex (ex?) presidente da CBF com a eleição do mineiro para o Senado:

“O cartola viu aumentar sua influência nas articulações políticas em Brasília após a eleição de dois de seus principais aliados e a reeleição de outros três para o Senado. Teixeira assistiu a seu amigo pessoal e ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB-MG) chegar ao Senado, ao lado de outro antigo aliado, o deputado federal Ciro Nogueira (PP-PI). ”

Teixeira não ficaria triste, com certeza, com a chegada de seu “amigo pessoal” à presidência.

Ou será que o nosso acadêmico Merval Pereira – tão sisudo ontem ao apoiar a posição de Aécio e dizer que é preciso “reduzir a interferência política na gestão dos clubes e da CBF” – acha que “interferência política” a favor da cartolagem pode?

Até porque ficou famosa a “bancada da bola” e bola, aqui, no Rio, tem duplo sentido.

E rola solta no futebol.

Apocalipse do futebol brasileiro? Futebol só existe aqui?

Apocalipse do futebol brasileiro? Futebol só existe aqui?

DIAGNÓSTICOS EQUIVOCADOS – Tem algo que está me incomodando profundamente neste pós 7 à 1 do Brasil. Escrevi várias vezes que o sr. Scolari colocou um time lépido e fagueiro contra a pátria mãe do futebol força. Contra um futebol aplicado, objetivo e sem firulas.

Subestimamos uma das maiores potências do futebol e pagamos o preço por isso. A homérica goleada é consequência disso, mas não em sua totalidade. Os 7 à 1 foram um resultado completamente atípico, que desnorteou o mundo inteiro, inclusive os vencedores.

É possível que nem daqui há 100 anos vejamos algo igual no futebol. Ponto.

Depois dessa breve análise, da qual se pode discordar, evidentemente, agora vem a parte que me incomoda. As redes sociais estão lotadas de críticas à CBF e aos dirigentes do futebol brasileiro. Estão lotadas de críticas ao sr. Marín, como se ele ou a CBF fossem os culpados pela derrota brasileira, ou até mesmo pela evidente humilhação histórica. Não concordo.
Todo mundo sabe dos problemas extra campo do futebol brasileiro, dos clubes, da CBF e até da Fifa. Mas debitar a nossa derrota de 7 à 1 na conta dessas estruturas arcaicas é um imenso erro de análise.

Não foi com a antiga CBD (que foi virou CBF em 1979) sob a Presidência de João Havelange que o Brasil se tornou Tricampeão Mundial de Futebol? Como explicar que o ‘mafioso’ Havelange tenha nos legado 03 Copas do Mundo em sua gestão?

Será que é possível explicar a inexplicável derrota do Brasil para a Alemanha através de fatores extra campo? Se é possível (não concordo), deveríamos no mínimo tentar também explicar como é que o Brasil se tornou o país do futebol com essa mesmíssima estrutura ultrapassada, ou até pior no passado.

A gestão de Ricardo Teixeira à frente da CBF (1989-2012) é a mais vitoriosa da história da Seleção Brasileira (dentro de campo), com 02 Copas do Mundo, 05 Copas América e 04 Copas das Confederações.

Isso sem falar na questão dos clubes brasileiros, que passaram a vencer com maior regularidade os torneios e campeonatos internacionais, notadamente a Taça Libertadores da América que vencemos de forma consecutiva nas últimas 04 edições.

Se vamos detonar a CBF e o seu antigo presidente Ricardo Teixeira (que ainda comanda a entidade por baixo dos panos, desde os EUA), e dizer que o fracasso da Seleção Brasileira em 2014 é responsabilidade deles, será que não deveríamos tentar explicar também porque essa estrutura assim tão arcaica nos deu tantos títulos entre 1989 e 2014?

Ou só vale a crítica quando perdemos e quando ganhamos, como em 1994 e 2002, nos esquecemos automaticamente da figura do sr. Ricardo Teixeira? Ou só vale a crítica quando perdemos e quando ganhamos, como em 1958, 1962 e 1970, nos esquecemos automaticamente da figura do sr. João Havelange?

Caros amigos e amigas, a derrota contra a Alemanha é responsabilidade única e exclusiva da Comissão Técnica do Brasil, em especial do sr. Scolari. Esta é a verdade sobre o episódio, além de termos que compreender que o que houve tem também um componente meio inexplicável, típico do futebol.

Debitar esta derrota na conta da CBF, que tem um Centro de Treinamentos dos mais modernos do mundo e que banca uma estrutura invejável para qualquer Seleção, é um erro. E debitar esta conta no fato de que os jogadores brasileiros hoje atuam, em sua grande maioria, no exterior, é outro erro grosseiro.

Já era assim em 1994. Foi assim em 2002 e é assim agora. Logo, essa tese também não explica a acachapante derrota de nosso selecionado.

Aliás, onde é que jogam a maioria dos atletas argentinos que farão a final contra a Alemanha? Aliás, onde é que Messi joga desde a sua mais tenra idade?

Queremos e devemos modificar e aperfeiçoar a estrutura do futebol brasileiro, dos clubes e da CBF, mas atribuir o fracasso da Seleção Brasileira em 2014 aos processos e estruturas arcaicas das nossas entidades dirigentes está errado.

Há uma tese ufanista que diz há bastante tempo que se o futebol brasileiro fosse minimamente organizado venceríamos todas as Copas do Mundo…

Que barbaridade!

Será que somos tão bons assim, será que somos tão superiores assim? Será que só o Brasil gosta de futebol no mundo? Será que somos os únicos bons e o resto dos países é composto por perebas e pernas de pau?

Será que italianos, argentinos e alemães não jogam e nunca jogaram nada, ao contrário do Brasil que sempre teve o melhor futebol do universo?

É preciso admitir, outros vários países amam o futebol e sabem jogar muito bem este fascinante esporte bretão. E é preciso admitir também que estamos numa entressafra de talentos futebolísticos.

Tirando o Neymar, que é um jogador diferenciado, quais são os outros atletas brasileiros desta Copa que não são medianos ou algo pouco acima de medianos?

Vamos mudar a estrutura do futebol brasileiro e aperfeiçoá-la, sem dúvida. Mas não vamos nos iludir e atribuir derrotas para uma estrutura que bem ou mal nos trouxe até aqui, e que nos fez ser a maior potência futebolística do planeta.

Vamos trocar os dirigentes atuais por questões de cunho penal e processual penal, não porque isto tenha sido decisivo na formação do futebol brasileiro.

O verdadeiro mal do nosso futebol é o conluio CBF-Organizações Globo, que conseguiram até mesmo pulverizar o antigo Clube dos Treze. Mas não é este conluio que explica tudo o que acontece dentro do campo, em que pese explicar tudo o que acontece fora dele…

Os motivos da nossa derrota atual não passam por fatores extra campo, isso é uma ilusão.

Passam, isto sim, por um curto-circuito inexplicável de nossos atletas e pela escalação faceira do sr. Scolari, que preferiu jogar contra o futebol força alemão como se estivesse jogando um amistoso contra a Ferroviária de Araraquara.

Intervenção no futebol? Não, intervenção no dinheiro do futebol

Autor: Fernando Brito

O inacreditável oportunismo de Aécio Neves diz que o governo quer – e o país não precisa – de uma “Futebras”, como se fosse essa a forma que o Estado brasileiro tem – e deve ter –  de intervir na imoralidade que – todo mundo sabe – campeia nos chamados “negócios esportivos”.

E onde, claro, quem menos tem vantagens é a imensa maioria dos jogadores.

A intervenção que o futebol brasileiro precisa é no controle e fiscalização estatal sobre os imensos fluxos de dinheiro que ele proporciona, embora os nossos clubes de futebol estejam – ou aleguem estar – sempre falidos e a mendigar favores fiscais ao Estado.

Nem vamos falar deste escândalo atual sobre as fortunas movimentadas por um agente da cartolagem da Fifa com os ingressos da Copa.

Temos a imensa sonegação fiscal da Globo na compra dos direitos da Copa de 2002, devidamente abafada com a condenação de uma humilde funcionária da Receita, que um belo dia, sem mais nem porquê, resolveu colocar o processo numa sacola e fazê-lo desaparecer.

O  agora ex-presidente do Barcelona, campeão de escândalos, escapou ileso dos seus tumultuados negócios com Ricardo Teixeira e, antes mesmo da Justiça pelo imbroglio do amistoso superfaturado entre Brasil e Portugal , carregou daqui  até o capital de sua suspeitíssima empresa de marketing esportivo, a Alçianto, um “troco” de 12 milhões de reais.

Sem falar do monte de “agentes” de jogadores mais mixurucas, que cansam de lavar dinheiro de todas as formas, inclusive via empresas de factoring.

Dos “grandes” como o empresário iraniano Kia Joorabchian, homem-forte da MSI, nem é preciso falar, não é?

Todos os contratos relativos a clubes e outras entidades esportivas – inclusive os de publicidade e transmissões esportivas, bem como os que se referem a transações de “passe”  dos jogadores  – devem ser objeto de um sistema de registros próprio, controlado pelo Banco Central,  porque implicam em receita para clubes, federações e confederações que têm isenções e benefícios fiscais do Poder Público.

Claro que não é preciso controlar os salários miúdos dos jogadores do modesto Íbis, de Pernambuco, nem qualquer pequeno valor, talvez nos limites de movimentação financeira acima dos quais as transações financeiras já são – ou deveriam ser – objeto da supervisão do COAF.

Dentro da lei, portanto.

Se os contratos forem registrados e estiverem sujeitos à fiscalização pública – porque acabam por envolver dinheiro público, na forma de isenções de impostos, perdão e parcelamento de dívidas – e a sua sonegação a este controle for criminalizada, ao menos administrativamente, boa parte deste câncer será controlado.

Claro que há muitos outros fatores sobre os quais se deve agir, que vão desde as práticas de iniciação esportiva até a criação de fundos de pensão próprios para esportistas, passando por inúmeras questões.

Mas, essencialmente, o  que destrói o nosso futebol é, todo mundo sabe, o dinheiro escuso e camuflado que nele se movimenta.

O Estado não tem que trazer o  Pep Guardiola para o nosso futebol. Se for para importar alguém, que seja um Eliott Ness.

Porque se trata de máfia, não de outra coisa.

Os impostos pagos pela Fifa sobre a venda de ingressos

Autor: Miguel do Rosário

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Benjamin Franklin, famoso pensador político norte-americano, cunhou uma frase célebre:

Neste mundo nada é certo, com exceção da morte e dos impostos.

A frase também vale para a Fifa.

Com a venda de ingressos esgotada para quase todos os jogos da Copa, imagino que valha a pena insistir num ponto no qual ainda persiste certa desinformação.

A receita gerada pela venda dos ingressos não é isenta de impostos.

As isenções fiscais permitidas pela Lei nº 12.350, de 20 de dezembro de 2010, decretada pelo Congresso Nacional, que valem para Fifa e seus associados, referem-se à importação de material e equipamentos esportivos usados nos jogos, além de todos os serviços relativos à organização (contratação, hospedagem e despesas com árbitros, por exemplo).

Entretanto, a venda de ingressos não entra nessa conta. Isso está bem claro na lei, nos seguintes capítulos.

§ 3º A isenção de que tratam as alíneas b e c do inciso II do caput não alcança as receitas da venda de ingressos e de pacotes de hospedagem, observado o disposto no art. 16.

§ 3º A isenção de que tratam as alíneas b e c do inciso II do caput:

I – não alcança as receitas da venda de ingressos e de pacotes de hospedagem, observado o disposto no art. 16;

A própria Fifa já deixou bem claro, em nota publicada em seu site, que pagará os impostos referentes à venda de ingressos:

A isenção final dada pelo país-sede à FIFA, no final das contas, nunca é geral e irrestrita. Como exemplo podemos mencionar a cobrança de impostos sobre as vendas de ingressos no Brasil.

Segundo um estudo da Ernst & Young, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, a receita agregada à economia brasileira, de 2010 a 2014, com a realização da Copa, deve ficar em mais de R$ 142 bilhões.

A estimativa da FGV é de que a Fifa e as empresas investidoras na Copa deverão pagar R$ 18,3 bilhões em impostos ao Brasil.

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Uma parte disso será com a venda de ingressos.

Em turismo, a estimativa da FGV para o aumento da chegada de turistas internacionais, ao longo dos próximos anos, é esta:

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Outras curiosidades

A Fifa reserva um ingresso “popular” nos estádios, disponível apenas para brasileiros.  É a categoria 4, para a qual se disponibilizou 400 mil ingressos, a preços de até R$ 30 na primeira fase dos jogos (ver tabela no início do post).

Entretanto, como se poderá ver nos gráficos abaixo, o espaço “popular” ocupa uma área relativamente pequena dos estádios, e esses 400 mil ficam “abafados” pelos mais de 3 milhões de ingressos vendidos.

Mais informações sobre os ingressos na Copa, que eu retirei do site da Fifa e do Ministério do Esporte:

Lista dos países que mais compraram ingressos para o Mundial.

1. Brasil – 1.395.886 ingressos
2. Estados Unidos – 198.208
3. Argentina – 61.477
4. Alemanha – 58.983
5. Inglaterra – 58.105
6. Colômbia – 55.497
7. Austrália – 52.313
8. Chile – 39.458
9. França – 35.052
10. México – 34.353
11. Canadá – 29.522
12. Japão – 22.759
13. Suíça – 17.815
14. Holanda – 16.037
15. Uruguai – 15.893
16. Espanha – 13.677
17. Israel – 11.937
18. Equador – 11.626
19. Rússia – 10.762
20. Itália – 10.064

Perfil dos ingressos, por tipo:

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Capacidade de público de cada estádio.

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Divisão dos tipos de ingressos, no estádio padrão da Copa:

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