Brasil se despede da Copa sob vaias e com derrota

Seleção leva dois gols nos primeiros 16 minutos de jogo, perde por 3 a 0 para a Holanda e amarga o quarto lugar. Júlio César se torna o goleiro mais vazado da história brasileira em Mundiais.

A seleção brasileira se despediu da Copa do Mundo neste sábado (12/07) sob vaias, gritos de “olé” e com uma derrota por 3 a 0 para a Holanda, ques sem qualquer resistência, deixou o Estádio Mané Garrincha com a terceira colocação.

Os gols de Van Persie, De Guzman e Wijnaldum deram à já pífia campanha brasileira contornos ainda mais vexatórios. E tornaram Júlio César o goleiro mais vazado da história da Seleção nas Copas, com 14 gols sofridos.

“É um sentimento de frustração. A gente sonhou com esse momento, nós ficamos noites sem dormir. E acabamos dessa forma”, afirmou o capitão Thiago Silva. “A gente não merecia que terminasse assim. Temos que pedir desculpa ao povo. É normal que nos tenham vaiado.”

A Seleção amargará agora a sua pior colocação no ranking da Fifa após uma Copa, fruto de uma campanha que em nenhum momento convenceu: desde a estreia contra a Croácia, vencida com um erro crasso da arbitragem, passando pelos empates com México e Chile, chegando à impiedosa goleada alemã. Um aproveitamento de 52%, o pior em 40 anos.

O jogo

As vaias da torcida a Fred e Felipão antes de a bola rolar deram lugar a aplausos e gritos de apoio na entrada do time em campo. Mas não demorou até o balde de água fria: aos dois minutos, Thiago Silva derrubou Robben na área, num lance claro de expulsão.

O juiz apitou pênalti, convertido com precisão por Van Persie, e optou por dar apenas o amarelo ao capitão brasileiro. Na base da vontade, a seleção brasileira logo se lançou ao ataque tentando reagir, mas esbarrou na falta de qualidade e entrosamento de um time que jamais jogou junto.

Com Neymar assistindo à partida do banco de reservas, Felipão pôs em campo um time com seis alterações em relação à semifinal: Maxwell, Paulinho, Ramires, Willian e Jô, além de Thiago Silva, que estava suspenso contra a Alemanha. As mudanças não surtiram efeito, e aos 16 minutos uma goleada holandesa se anunciava.

Após cruzamento, David Luiz cortou a bola para o meio da grande área, onde estava Blind, que ajeitou com tranquilidade e chutou na saída do goleiro Júlio César para fazer 2 a 0. Com 20 minutos, o Brasil ainda não havia finalizado a gol.

Oscar foi o que mais tentou na primeira etapa, mas o mais perto que o Brasil chegou do gol da Holanda foi, novamente, em bolas aéreas. A Seleção tinha mais posse de bola (59%), mas atacava de forma desordenada – e se defendia de forma mais desorganizada ainda. E foi para os vestiários sob vaias sonoras das arquibancadas.

Na volta para o segundo tempo, Scolari trocou Paulinho e Luiz Gustavo por Hernanes e Fernandinho. E a partida ficou mais equilibrada, ainda que mais por conta da Holanda, sem o mesmo ímpeto do primeiro tempo, do que por mérito brasileiro.

Aos 23, Oscar, o melhor em campo do lado brasileiro, sofreu pênalti em jogada individual, mas o juiz viu simulação e deu cartão amarelo ao meia. Felipão ainda pôs Hulk em campo, porém a Holanda continuou com o controle total da partida.

Nos minutos finais, a torcida ainda ensaiou gritos de “olé” quando os holandeses tinham a bola. E viu Wijnaldum, já nos acréscimos, fazer o 14º sofrido pelo goleiro Júlio César no Mundial. As vaias que se anunciavam durante todo o segundo tempo ganharam então força, marcando o tom da melancólica despedida brasileira.

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Foi péssimo, mas poderia ter sido ainda pior!

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O que é pior logo depois de levar sete gols: ter um pênalti mal marcado que redundou em gol antes do segundo minuto do jogo seguinte ou ficar com 10 jogadores àquela altura porque, embora fora da área, a falta impediu uma clara e manifesta chance de gol?

Ficar com 10 seria pior.

Thiago Silva deveria ter sido expulso e Van Persie converteu o pênalti.

Desenhava-se uma nova catástrofe no Mané Garrincha principalmente porque, 15 minutos depois, a Holanda fez 2 a 0 com Blind, livre, leve e solto dentro da área brasileira em falha de David Luiz, em lance que começou com De Guzmán ligeiramente impedido, daqueles lances em que o bandeirinha tem licença para errar.

A Holanda passeava e o Brasil tentava jogar.

Não gosto de ler escreverem fut em vez de futebol, como se fosse moderno.

Mas a Seleção Brasileira, jogando como se jogava anteontem, joga fute, falta o bol.

O primeiro tempo terminou barato em com vaias, mais tímidas, diga-se, que o surpreendente apoio antes do jogo, durante o hino e no começo do embate até o segundo gol.

Para o segundo tempo a Seleção voltou com Fernandinho no lugar de Luiz Gustavo.

Fernandinho teve um surto de Felipe Melo e pegou Van Persie. Deveria ter sido expulso, mas só levou o amarelo, aos 8.

Hernanes entrou no lugar de Paulinho, aos 11.

A primeira entrada dele em Robben foi criminosa e nem amarelo levou do apitador molão.

Ramires teve a chance de diminuir e chutou para fora.

Depois saiu e Hulk entrou.

Para fechar com chave de bronze, a Holanda ainda fez 3 a 0.

O jogo terminou sob vaias em alto e bom, mau, som.

Marin disse ao repórter Fernando Rodrigues que manteria Felipão se não houvesse nova catástrofe.

Não houve?

Que tal se o primeiro a se demitir for o próprio Marin?

A Holanda, invicta, mereceu o terceiro lugar.

O Brasil, ridículo, mereceria o sexto.

Sexto?!

Não!!!

O CESTO!!!!

NOTAS:

Júlio César, 5, sem culpa, sem milagres;

Maicon, 5, nem choveu nem molhou;

Thiago Silva, 5, deveria ter sido expulso;

David Luiz, 4, sua pior atuação, perdeu o lugar na seleção da Copa;

Maxwell, 3, uma nova avenida;

Luiz Gustavo, 4,5, sucumbiu;

Paulinho, 4, desapareceu;

Oscar, 5,5, o melhor do time;

Ramires, 5, lutou e só;

Jô, 4, jogou?

Willian, 4, jogou?

Fernandinho, 3, entrou para bater;

Hernanes, 3, como Fernandinho;

Hulk, 3, como Fernandinho e Hernanes;

Felipão, sem nota, deveria apresentar seu pedido de demissão.

CBF, zero, porque, se não bastasse perder de 10 a 1 as finais da Copa, o time não ficou no gramado na premiação para os holandeses.

Derrota sem ‘apagão’ deixa clara limitação do time

Se já não temos craques como no passado, a falta de organização tática do time tornou bons jogadores em medíocres

“Isso não em nada a ver com treinadores, com dirigentes. Nossa equipe tem alguma dificuldade a mais com relação a jogadores, estamos revelando um pouco menos.” A frase é de Luiz Felipe Scolari, treinador da seleção brasileira de futebol na coletiva após a derrota da equipe por 3 a 0 frente à Holanda. Com ela, negou a necessidade de qualquer reciclagem tática do futebol praticado pela seleção em relação aos times europeus.

Se o diagnóstico é esperado de quem defende o trabalho que fez, ele vai na contramão da realidade vista em campo nessa Copa do Mundo. O Brasil fez sete jogos no torneio sem conseguir apresentar um futebol consistente, como o que levou à conquista da Copa das Confederações em 2013 – que agora se transforma em uma vitória enganosa. A tentativa era sempre a de marcar a saída de bola e tentar fazer um gol rápido, para depois recuar e buscar o contragolpe. Não deu certo nenhuma vez, mas mesmo assim prosseguimos.

Mas para além dessa estratégia geral, os erros se davam na distribuição do time em campo. Não havia uma lógica na ocupação dos espaços, como é possível ver na Alemanha ou na Holanda, fazendo com que a marcação, no ataque ou na defesa, deixasse os jogadores no mano a mano. Na frente, isso inviabilizou a tomada rápida da bola, já que os times mais organizados achavam sempre opções de passe. Atrás, permitiu os dois resultados elásticos.

Se os fantásticos 4 gols em 6 minutos aplicados pela Alemanha colocaram o resultado muito fora da curva razoável para um confronto do futebol moderno, a partida contra a Holanda transcorreu sem apagões brasileiros. E, mesmo assim, a diferença no placar igualou o pior resultado do Brasil na história das copas antes da semifinal de terça.

Muitos comentaristas encarnaram “profetas do passado” e agora dizem que o time sempre foi muito ruim. Exagero: a comparação nome a nome com a Alemanha e Holanda poderia trazer vantagem para os europeus (para os finalistas com certeza), mas não um abismo tão grande quanto o que foi visto nos dois últimos jogos.

Temos, sim, limitações, especialmente no setor de meio de campo, mas não tão trágica. O que faltou foi clareza dos pontos fortes e fracos do elenco, e estratégias de ocupação dos espaços e criação de jogadas. Sem isso, bons jogadores se transformaram em medíocres e, mesmo atletas ótimos, como nossa dupla de zaga, cometeram erros em cima de erros.

Felipão não está errado quando diz que não produzimos craques como em outros momentos e, até por isso, erra mais feio ainda ao não trabalhar melhor a questão tática. Para veteranos como ele e Parreira, talvez não seja mesmo o caso de reciclagem, porque é capaz de ser a hora de aposentadoria da função de técnico, mas, para o futebol brasileiro, com certeza, é um sinal importante.

Felipão, o escudo

20140712-162642-59202686.jpg Segundo o blog do repórter Fernando Rodrigues, José Maria Marin está disposto a manter Felipão à frente da Seleção Brasileira. Normalmente, seria uma atitude correta, porque mudar técnico simplesmente por mudar, mesmo depois de derrotas acachapantes, em regra, não resolvem nada. Claro que a derrota por 7 a 1 foi mais que um fracasso escandaloso. E o que move Marin não é nenhum cálculo técnico, mas político. Marin tem cabeça, tronco e membros de barro e sabe que Felipão, apesar de tudo, funciona como escudo. Por isso foi escolhido exatamente no momento em que Mano Menezes parecia ter achado um time e um jeito de jogar, mas o cartola não permitiu que ele colhesse os frutos. A conquista da Copa das Confederações serviu para respaldar a troca ao velho estilo, além dos fracassos subsequentes de Mano Menezes. Agora, Marin quer usar Felipão como escudo — ou bucha de canhão. O gaúcho tem casca grossa e suporta qualquer crítica. É óbvio que o problema está em cima, na estrutura podre de nosso futebol. Se as forças esclarecidas do Brasil, a começar pelos poucos que as representam entre torcedores, Congresso Nacional e governos municipais, estaduais e federal, não se mobilizarem agora para exigir mudanças, tudo continuará como está e amanhã, novos 7 a 1, como os 8 a 0 do Barcelona sobre o Santos, ou a derrota do Galo no Mundial de Clubes ou, ainda, a ausência de clubes brasileiros nas finais da Libertadores deste ano, se repetirão com cada vez maior frequência. A hora é agora e, como cantava Geraldo Vandré, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Brasil X Alemanhã

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Ivo Minkovicius
Dagui Design

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Tem gente que não gosta de futebol.

Tem os que são indiferentes.

Os que gostam.

E os que são meramente alucinados por futebol.

Coitados. Desprezo-os.

Nem sei como pode existir gente assim sem sentimentos e sem noção de valores.

Eu sou inteiro feito de futebol! Penso como futebol. Leio como futebol. Ando como se jogasse. Durmo. Amo. Não há distância entre mim e o futebol. Não há duas pessoas, dois sujeitos, muito menos sujeito e objeto. Sou futebol.

Forma e conteúdo, dentro e fora, realidade em si e para si, corpo e alma, pão e vinho, pai-filho-espírito, mãe-feto, carne e sangue.

Não concebo que alguém possa se deixar enganar pela ignorância ou pela prepotência de que futebol é algo externo, ao qual se assiste ou não, de que se gosta ou não, pelo qual se é apaixonado ou não.

Alienados! É o que são.

Eu, ao contrário, só às vezes posso perder consciência e ver em lapsos o que há no mundo que seja alheio e antitético ao futebol , que é pouquíssima coisa – que eu me lembre, só o Everest, o vácuo, a CBF e o Dante.

Mas é rápido. Logo recobro meu ser-estar. Minha ontologia.

É aqui que a coisa pega.

Desde terça-feira não consigo fazer nada nem pensar em nada que não seja o apocalipse do jogo do Brasil.

Perdi existência, desfragmentei-me, duvido da realidade, da concretude de tudo e de todos.

Inverteu-se o quadro. Agora, tudo o que vejo é não-futebol, antifutebol, afutebol. E o que é futebol (eu e tudo o mais) quase não existe. Existe fraco, sombreado, virtual, sob dúvidas cognitivas, filosóficas, existenciais, táteis.

Naquele dia – eu nem posso me lembrar – os alemães vieram pra derrubar. Eu e todas as coisas no meio da realidade a vivenciar a demolição. Era a mim que a tristeza desmontava: cada bola que entrava sangrava meu coração!

E agora, destruído, eu sonambulo, funambulo, deambulo, trêmulo.

Mastigo e grito pra dentro minha mais funda convicção: o Brasil devia era ter posto ainda mais atacantes! – ao contrário do que dizem a filosofia e o senso comum oportunistas do não-futebol.

Que todos fossem pra cima, ao ataque, desde o início, sem zagueiro, sem goleiro, sem volante!

Nada de contenção, preenchimento, linha de quatro, recuo – essas interferências do mundo afutebolístico, antifutebolístico e não-futebolístico no mundo real.

Todos da intermediária alemã pra frente!

Era preciso que o técnico e a torcida gritassem, antes do jogo, no lugar de cantar o hino: pra cima deles! pro ataque! meter gol!

Pra preservarmos o nosso pacto com a realidade. O meu, pelo menos.

E agora fica esse limbo, essa ilusão enevoada e tormentosa que não tem hora pra acabar.

E eu achando que o tempo não andou. Ou que umas engrenagens da vida andaram e outras não.

Que, na verdade, não houve o jogo de terça-feira.

E que, enquanto não ocorrer esse jogo, a Copa não vai acabar.

Mas eu vou.

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Luiz Guilherme Piva lançou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)

A incrível história de Si

POR FÁBIO DE AMORIM SANTANA

Sidnei Soriano Sucupira. Ou simplesmente Si. Ele foi o maior jogador de todos os tempos da história do futebol. Si foi maior do que Pelé. É que a imprensa da época sempre teve preconceito com o Si. Criaram até um slogan para difamá-lo: “Si não entra em campo, Si não joga”. Maldade pura. Si entrava em campo o tempo todo. Na verdade foi o jogador que mais entrou em campo. Único a jogar futebol profissional, em alto nível, até os 72 anos. Nascido em 1º de janeiro de 1942, Si começou sua história no futebol em 1950. Era gandula durante a Copa do Mundo no Brasil com apenas oito anos de idade. Teve sorte de acompanhar todos os jogos do Brasil no campo. Viu grandes vitórias do escrete brazuca. Na final, no recém-inaugurado Maracanã, Si foi escalado para trabalhar no jogo. O Brasil estava de branco no dia 16 de julho, às três da tarde. Friaça fez 1×0 logo no início do segundo tempo. Aí, a genialidade de Si aflorou. Ele já havia visto a habilidade do uruguaio Ghiggia. E correu para avisar Bigode. Si chegou perto do brasileiro e falou: “Bigode, o Ghiggia é mais rápido que você… quando ele ameaçar o drible, dê um puxão na camisa dele. Quando ele tentar de novo, jogue o corpo em cima dele. Faça falta de novo”. Bigode olhou para o garoto de oito anos e sorriu: “Claro, moleque!”

Evidente que Bigode não iria fazer nada. Dito e feito. Ghiggia deixou Bigode na saudade e cruzou para Schiaffino. 1×1 no Maracanã, incrédulo. O garoto foi lá e avisou de novo. Dessa vez, receoso, Bigode considerou parar Ghiggia com falta. Nada muito agressivo. Só uma faltinha. Aos 34 do segundo tempo, Ghiggia avançou de novo pela direita. Bigode estava nele. Si, então, gritou: “Vai nele, Bigo!!” Bigode foi. Ghiggia passou por ele mas o brasileiro conseguiu puxar o calção do uruguaio, que caiu. Falta. O jogo prosseguiu assim, com Bigode fazendo faltas em Ghiggia até que Ademir trocou de lugar com Bigode para seguir com as faltas em Ghiggia. O jogo acabou. Com o empate, o Brasil se tornou campeão do mundo pela primeira vez. O garoto Si vibrou e se sentiu responsável direto por isso. A partir dali decidiu ser jogador de futebol.

Si tem uma lista imensa de contribuições para o futebol brasileiro, tendo jogado em mais de 10 clubes diferentes no país. Com ele em campo nenhum time brasileiro perdeu uma final de Libertadores, ou perdeu, jamais perdeu, para o Boca Juniors em fase de mata-mata. Na seleção, a carreira seguiu igual. Em 1974, Si avisou Zagallo sobre como jogava a Holanda. Zagallo não deu bola, mas Si confabulou com os jogadores da seleção e tudo mudou em campo. O Brasil venceu por 2×1, de virada, um gol de Si e outro com passe dele. Na final, um massacre. Si e companhia botaram poderosa Alemanha na roda: 7×1, a maior goleada da história das Copas numa final. Si marcou 4 gols. Na copa da Argentina em 78, Si driblou dois hermanos, aos 44 do segundo tempo, e marcou o único gol da vitória brasileira. Na final contra a Holanda, nova vitória. O Brasil já era hexa. Em 82, o único time que rivalizou com a seleção de 70 entrou em campo contra a Itália. Si estava no banco porque estava com 40 anos. Telê Santana queria colocar Paulo Isidoro no lugar de Serginho. Mas Si pediu para entrar: “Eu resolvo”. E entrou. Nos acréscimos, cruzamento na área. Sócrates pulava para cabecear, mas Si tomou a frente do Magrão e cabeceou primeiro, tirando do goleiro italiano Dino Zoff – que também tinha 40 anos. 3×3 e Brasil estava na semifinal. Depois, o Brasil se consagrou campeão pela sétima vez. E o país se assumiu de vez como o dono do futebol arte, organizado, inteligente, bonito e vencedor.

Si sempre resolvia. Ele foi responsável pelo primeiro título de Libertadores do Corinthians, em 99. Na disputa de pênaltis avisou para Dinei bater no meio do gol. E na última hora trocou de lugar com Vampeta. Si bateu e fez. Si conhecia onde Zinho costumava bater pênaltis e avisou o goleiro Maurício, que pegou. Depois de se livrar do Palmeiras, o Corinthians passou pelos outros times e foi campeão. Em 2000 a campanha se repetiu. Outra vez o Palmeiras, outra vez decisão nos pênaltis, dessa vez na semifinal. Si não deixou Marcelinho bater a última cobrança. Ele mesmo fez isso e marcou: 5×5. Aí, nas alternadas, Rogério bateu e Dida pegou (dica de Si). Luisão bateu e fez. Corinthians outra vez superou o rival, avançou na Libertadores e conquistou o bi. Si foi o herói de novo, com 58 anos.

Si contribuiu com diversos títulos de clubes brasileiros. Na final do brasileiro de 1980, Si jogava pelo Atlético-MG. Ao lado de Reinado era o artilheiro do campeonato. Reinaldo foi injustamente expulso, só por ter reclamado de um impedimento. O Flamengo só precisava de uma vitória simples para ser campeão. Estava 2×2. O time carioca fez mais um. Mas, nos acréscimos, Si arrancou pelo meio e chutou de longe… gol e título para o Galo. Assim era o Si. Ele sempre entrava em campo e decidia. Mas por algum motivo desconhecido, a imprensa o ignorava. A Fifa o ignorava nas premiações. A CBF idem. Si marcou mais de 1,4 mil gols. 1406 pra ser exato.

Em 2014, na Copa do Mundo no Brasil, Si foi convocado, mesmo tendo 72 anos. Ele só jogava 15 minutos, mas sempre decidia as partidas. Felipão só chamou Si por causa de um impressionante clamor popular. Felipão queria levar Jô para ser reserva de Fred, mas acabou tendo que aceitar Si, à contragosto. Si não entrou em campo na primeira fase. Nem nas oitavas, nem nas quartas. Na semifinal, no último treino, Si jogou seus 15 minutos de sempre. Marcou três gols. Mas o treino de Felipão era só para enganar a imprensa. E para o lugar do contundido Neymar entrou Bernard. O primeiro tempo acabou 5×0 para os alemães. Felipão não colocou Si em campo. Dessa vez, realmente, o Si não entrou em campo, porque se entrasse, não mudaria nada. Si chorou no vestiário. Ele insistia que sabia como vencer a Alemanha. Mas ninguém quis ouvir um velho de 72 anos. Si anunciou sua aposentadoria do futebol no dia seguinte. Disse que queria ser presidente da CBF no futuro. Mas sabe como é, né, o pessoal sempre acha que o Si não joga, que o Si não entra em campo. Também vão achar que o Si não resolve nos bastidores da bola…

Foi terrível, um vexame. Uma vergonha inesquecível e irreparável. Mas há motivos para o Brasil agradecer à Alemanha.

É cínica a lista que vem a seguir. Mas, além do humor, é preciso outros recursos para lidar com a frustração e a tristeza de ter tomado uma surra homérica, histórica, implacável. Perder de 7 x 1 é ruim. Ver os adversários marcarem 6 x 0 sem comemorar o sexto tento é humilhante. É ser tratado como time pequeno.

Mas perdermos. O revés sem precedentes nem paralelos redime muita gente, aumenta a média de gols, força o futebol brasileiro a mudar… Há aspectos positivos.

Todo mundo aqui preferiria um 1 x 0 honesto. Mas já que apanhamos de chinela…

1) Barbosa é inocente

Que o goleiro da seleção brasileira na primeira copa realizada no Brasil, a de 1950, foi bode expiatório do Maracanazzo, quase todo mundo sabe. Mas os 7 x 1 foram a pior derrota da história do futebol brasileiro. Disparadamente. Não foi na final, foi nas semifinais. Mas foi a maior goleada em copas e igualou-se à pior goleada fora de copas (6 x 0 imposto pelo Uruguai em 1920). O culpado pela derrota mais dura e marcante do Brasil em copas não é Barbosa porque a mais terrível e dolorosa derrota brasileira não é mais a da Copa de 1950. Outros algozes de desclassificações, como Toninho Cerezzo, em 1982, Carlos, em 1986, também estão todos isentos.

2) Mudar tudo é inevitável

Treinadores brasileiros não conseguem aproveitar o potencial individual dos talentos que ainda existem – em quantidades menores do que no passado, mas ainda em volume relevante. A organização da CBF, a forma como a preparação para a copa é feita, a formação de atletas… É hora de mudar tudo no âmbito do futebol. Isso é uma constatação inegável.

3) Felipão e Parreira nunca mais pisam no banco da seleção

Luiz Felipe Scolari deixou o Palmeiras, rebaixado em 2012, para assumir a seleção. É um técnico ultrapassado taticamente. Carlos Alberto Parreira vai na mesma linha. Eles não voltam a comandar a seleção. Isso é positivo. O time alemão é bom e mostrou consistência. Mas, diante de uma Argélia e de uma Gana montadas para pará-los, foram parados. Contra o Brasil, só Joachim Löw se preocupou em aproveitar as falhas na formação defensiva do Brasil. A comissão técnica brasileira parece não ter feito o mesmo. Olhar o adversário e adaptar o estilo de jogo a isso é o mínimo.

4) Nunca mais o Brasil vai depender tanto de um craque só

Apostar todas as fichas em um único talento (Neymar) não funciona para uma seleção como o Brasil. É necessário ter um mínimo de consistência tática para compensar a técnica que já não é tão abundante. Sem ter alternativas de criação de jogadas e de cadência do jogo não dá.

5) Não haverá Maracanazo

Foi um Mineiraço, é verdade. Mas não se repetiu a história. Porque a história só se repete como farsa. Aliás, já tem gente sentindo saudades do Maracanazo.

6) Zúñiga não precisa ser linchado

O autor da entrada violenta que tirou Neymar da Copa não é o responsável pela eliminação do Brasil. Porque um massacre de 7 x 1 não é fruto da ausência de um jogador (ou dois, considerando a suspensão de Thiago Silva). É culpa da falta de tudo. E de méritos do adversário.

7) 2014 já é a segunda copa com mais gols marcados da história

Na fase de grupos, era uma pujança de gols marcados. Goleadas, viradas… Nas oitavas, uma magreza, com placares apertados, o maior número de prorrogações da história desta etapa e três decisões por pênaltis. Nas quartas, ainda pior, uma média de gols de 1,25 por jogo. Os oito assinalados em apenas uma partida da semifinal representam mais do que os feitos nas quatro partidas das quartas. O total subiu para 167 e a média de gols por jogo alcançou 2,74. Em números absolutos, a Copa no Brasil passou a de 2002 e só precisa de mais quatro gols para igualar a marca de 1998. Valeu, Alemanha, por quebrar esse galho para o Brasil.

Bônus: Contrapartida do Brasil

Para deixar o placar em 7 x 1, incluímos aqui um bônus daquilo que o Brasil proporcionou para a Alemanha. Miroslav Klose ultrapassou Ronaldo, Fenômeno, em uma partida contra o Brasil e no Brasil. Ele quebrou o recorde de partidas vitoriosas em copas, antes de Cafu. Fez do time de Joachim Löw o melhor ataque disparado da competição. E por aí vai.

Não tem de quê.