5 maneiras de como o idiota fascista é produzido historicamente

fascismoPor Douglas Rodrigues Barros[1]

Quando Adorno escreveu Educação após Auschwitz, ele tinha como objetivo prevenir a catástrofe fascista. O crítico chamava a atenção para a importância da análise sociológica como aquela que informaria “sobre o jogo de forças localizado por trás da superfície das formas políticas”. Com efeito, um sintoma de proto-fascismo se evidencia quando a sociologia é posta em dúvida, ou é alvo de piadas em alguns centros de risadas forçadas e irreflexivas.

Não é à toa que o que se oculta no interior do programa Escola sem Partido é, na verdade, aquele incomodo sexagenário gerado pelo retorno da filosofia e da sociologia à “grade” curricular. Os defensores de tais programas revelam assim seus inconfessáveis desejos de ver a velha Educação Moral e Cívica que, subserviente a interesses escusos, – esta sim – doutrinava e excluía de si toda a dúvida. O que estes temem de fato é a potencialidade crítica da dúvida que essas matérias promovem no interior da sala de aula, gerando inclusive o inconformismo dos estudantes ante a total desagregação da educação pública no país. Mas isso será tema de um próximo artigo.

Por enquanto falemos da gravidade da situação política que se espalha não só pelo Brasil, mas pelo mundo como um todo. O fascismo sem dúvida é uma idiotice. No entanto, é uma idiotice que não se pode, em hipótese nenhuma, ser subestimada. Quando um aloprado deputado, que cospe reacionarismo, se joga, tal como um rockstar, da carroceria de um caminhão e se estabaca no chão sobre o aplauso e histeria de centenas de seguidores, apesar da grotesca cena e da babaquice em questão, é um sintoma para ser levado a sério.

Uma das questões mais importantes que o fascismo nos legou é que, apesar das formas grotescas de sua expressão, ele deve ser objeto de denuncia constante. Afinal, na Alemanha pré-nazista ninguém levava a sério um baixinho de bigode raspado, com estandartes ridículos que esbravejava impropérios contra a civilização, querendo romanticamente uma sociedade na qual o super-homem nietzschiano – obviamente integrado e desvirtuado pela ideologia nazista – teria espaço.

Nesse sentido, o que apresento aqui é uma síntese cabível neste espaço sobre como o fascismo é produzido na oficina da história pela crise e falta de perspectiva. Aqueles que se interessarem pelo tema e quiserem se aprofundar podem pesquisar não apenas Adorno e os escritos da, vulgarmente chamada, Escola de Frankfurt, como também, um dos livros mais sagazes e profundos sobre o fascismo: Labirintos do Fascismo de João Bernardo.

Vamos às cinco características:

1 – O fascismo é uma revolta dentro da ordem

Ele aparece como uma potencialidade de transformação, mas esbarra nos limites de uma mudança feita para nada mudar. Isso porque seus adeptos geralmente esbarram em questões que pairam na superficialidade dos problemas. Numa moralização unilateral que evidencia somente os aspectos mais pragmáticos e, por isso, propagandísticos nas crises políticas e econômicas. Por exemplo:o principal motor da xenofobia em 1930 e na presente fascitização europeia e paulista é enxergar o problema do desemprego no imigrante e não na crise estrutural pelo qual passa a economia. Do mesmo modo, a propaganda contra a corrupção se torna unilateral. Ela não denuncia que a própria engrenagem político-econômica fomenta a corrupção como algo necessário para sua própria manutenção.

2 – O fascismo é fenômeno de crise e falta de perspectiva de mudanças profundas

O fascismo nasce de alguns desastres históricos. Não apenas de uma profunda crise econômica, mas de uma crise político-social que lá atrás arrastou a Europa para a Grande Guerra. E o horizonte hoje com o começo da dissolução da zona do euro e ressentimentos de toda ordem não se apresenta tão diferente. Do mesmo modo, a crise estrutural no Brasil fomenta atividades e ressentimentos de classe e posições altamente conservadoras e reacionárias. Separatismo e paixões provincianas, além do nacionalismo tacanho, marcam também algumas de suas características fundadas na falta de perspectivas reais de melhorias.

3 – As instituições democráticas são irrelevantes para o fascista

Já em 1921 Benito Mussolini discursava marcando algumas características que permeariam a noção do ser fascista: “Estaremos com o Estado e a favor do Estado sempre que ele se mostrar um guarda intransigente” dizia o idealizador fascista, “mobilizar-nos-emos contra o Estado se ele vier a cair nas mãos de quem ameaça a vida do país e atenta contra ela”. Com certeza, uns cem números de leitores dessa revista devem ter gostado e simpatizados com a fala do líder, Mussolini, que muito tem em comum com aquele outro que deu de cara no chão.De um lado, o respeito pelas instituições democráticas só é feito tendo em vista a participação dos próprios fascistas na partilha do poder. Por outro lado, o fascismo pretende substituir o poder estatal quando a democracia não compartilhar de suas crenças.

4 – O fascismo avança quando os progressistas retrocedem

A partir dos duros golpes sofridos e no retrocesso da tentativa de superar a desigualdade histórica; a ideia de uma revolução dentro da ordem, para salvaguardar a sociedade do comunista comedor de criancinhas, se consolida e ganha aos poucos as mentes e os corações.A assim chamada “revolta dentro da ordem” como uma das características centrais do fascismo assume muitos dos aspectos tradicionais da luta dos trabalhadores, mas para colocá-lo na perspectiva da ordem da economia imperante. Assim, quando uma massa amorfa de verde-amarelo sai as ruas e utiliza palavras de ordem e formas de luta tradicionalmente de esquerda (como por exemplo a ocupação da Paulista) ela não está sendo original, esse caminho já é conhecido.

5 – O ser fascista detém a capacidade de maquinar, remodelar e recriar fatos históricos e corriqueiros

Nenhuma outra corrente política recorreu tanto a estetização da política como forma de impor seu pensamento, em termos mais simples, nenhuma outra corrente recorreu tanto a possibilidade de ludibriar, mentir e persuadir aqueles que querem. Como nos mostra João Bernardo (2015): a versatilidade das palavras, a possibilidade de moldá-las a seu favor e unir isso a uma propaganda massiva foi um dos grandes atributos do fascismo, assim como; escrachar figuras públicas, criar factoides e manipular dados.

Qualquer semelhança com nossa época atual não será mera coincidência.Os números oficiais indicam que todos os dias morrem duas pessoas por erros policiais. A cada dez minutos uma pessoa é assassinada no Brasil, o Anuário de segurança pública revela ainda que, por dia, seis pessoas foram assassinadas por policiais no Estado de São Paulo em 2013. Acaba de sair uma matéria no New York Times indicando que o Brasil é o país mais perigoso do mundo para os homossexuais. De tal maneira, qualquer estudo mínimo sobre as estatísticas da guerra particular no Brasil revela os horrores instaurados e provenientes de uma ditadura não encerrada.

Não faz muito tempo, entretanto, que tal violência, pelo menos no nível do discurso, era combatida, mesmo pelos meios hegemônicos de comunicação de massa.Atualmente, porém, parece que algo se alterou no quadro de interesses da elite sempre conservadora do país. Agora a carnificina diária apreciada e difundida pelos programas policialescos instaura um sentimento de terror que se orienta na criação de um inimigo comum. Aonde isso vai dar, eis a questão, se é fascismo ou não, é um problema a se pensar. Talvez seja algo ainda pior, posto que não identificado, mas, já amplamente naturalizado.

[1]Escritor e mestre em filosofia, atualmente é doutorando em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.

Fonte: http://negrobelchior.cartacapital.com.br

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28 de abril de 1945 – Mussolini se rende

No dia 28 de abril de 1945, as tropas alemãs capitularam na Itália. Ao tentar fugir para a Suíça, o líder fascista Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci foram presos e executados.

”A história de Benito Mussolini (1883-1945) confunde-se com a do movimento fascista italiano. Seu fim começou no verão europeu de 1943, quando os Aliados desembarcaram na Sicília. No dia 25 de julho daquele ano, o órgão máximo do fascismo decidiu derrubar e prender o “Duce”, por causa de seus fracassos militares. O rei Vitor Emanuel rendeu-se aos Aliados e declarou guerra à Alemanha nazista, que apoiara anteriormente.

Em seguida, os alemães ocuparam a Itália, libertaram Mussolini e lhe deram proteção para proclamar a República de Saló, um governo títere da Alemanha. Enquanto isso, a população italiana organizava a resistência e cooperava com as tropas aliadas, que avançavam para o norte.


Tarde demais

No final de março de 1945, os Partigiani (guerrilheiros antifascistas) conquistaram Milão, fechando o cerco a Mussolini, que ainda tentou, sem sucesso, negociar sua rendição. No dia 28 de abril de 1945, os alemães capitularam na Itália.

Amargurado e resignado, Mussolini tentou fugir para a Suíça com sua amante Clara Petacci, num comboio de soldados alemães. Mas era tarde demais para o “Duce”: Partigiani italianos interceptaram o comboio, reconheceram o líder fascista e o fuzilaram junto com Clara. Os corpos foram levados a Milão e expostos, pendurados de cabeça para baixo, num posto de gasolina da praça de Loreto.

Enterrado sob nome falso em um cemitério milanês, o ditador ainda demoraria a encontrar seu último repouso. Um ano depois, seu cadáver foi sequestrado por fascistas e passou por várias cidades italianas, até ser encontrado pela polícia. Para evitar manifestações neofascistas, os restos mortais foram escondidos por mais de dez anos num mosteiro, sendo sepultados definitivamente em 1º de setembro de 1957”.

Apenas fazendo um adendo, os antifascistas, praticamente em sua totalidade comunistas, fizeram o justiçamento, porém, foi a própria população, embebecida de ódio, e mesmo os carabinieri (policiais), 300, tentando impedir um linchamento dos corpos, atirando para cima, mas não conseguiram, e portanto não foi possível durante algum tempo naquele dia, impedir o ataque da população ali reunida, contra os fascistas expostos.

Clima de caça às bruxas contra ideias de esquerda é muito preocupante, alerta sociólogo

Marco Weissheimer

Nos últimos meses tem crescido o número de relatos de casos de “denúncias” dirigidas contra professores de universidades e também de escolas de ensino médio, acusados de praticarem uma espécie de “doutrinação marxista” dentro das salas de aula. Inicialmente restritas a figuras mais caricatas como Olavo de Carvalho, essas denúncias vêm ganhando, porém, maior visibilidade midiática e o suporte de grupos de direita e extrema-direita articulados nacional e internacionalmente. “Há uma caça às bruxas muito preocupante dirigida contra um tipo de pensamento (de esquerda), como se ele fosse inaceitável”, diz Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-RS. Em entrevista ao Sul21, o sociólogo fala sobre o crescimento da atuação desses grupos dentro do ambiente acadêmico e relata um caso que viveu recentemente, quando um aluno gravou clandestinamente uma conversa na sala da coordenação do PPG e divulgou-a nas redes sociais como suposta prova da existência de uma “doutrinação marxista” dentro do programa de pós-graduação.

“Por mais que a gravação não tivesse nada que pudesse ser usado contra mim, ela causa um constrangimento. Para as pessoas que não gostam de mim, que acham que eu sou um esquerdista defensor de criminosos, é mais um argumento. Não interessa se é verdadeiro ou não, ele vai ser jogado nas redes sociais”, diz o professor.

Sul21: Em uma recente atividade na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, você falou sobre o crescimento de um clima de caça às bruxas, de caráter ideológico, dentro do ambiente acadêmico, dirigido contra o que seus promotores chamam de “doutrinação marxista” dentro das universidades. Qual é a dimensão deste fenômeno?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Estou na PUC há dez anos e a instituição é muito isenta neste sentido. Há cerca de 20 anos, a PUC estabeleceu um sistema de pós-graduação muito sólido que foi se consolidando ao longo do tempo. Hoje, os critérios e contratação de professores, especialmente os vinculados à pós-graduação, são muito objetivos e vinculados aos critérios da Capes, como produção acadêmica e publicação em revistas científicas, o que nos permite ter uma total liberdade de cátedra e de pesquisa. Os professores são submetidos a avaliações anuais com critérios que são bastante claros, que não se vinculam inclusive à própria questão da confissão religiosa da instituição. No contexto político que estamos vivendo hoje é evidente que há tensões, que aparecem mais em alguns cursos do que em outros. Em certas faculdades, há alguns alunos que têm uma posição mais ideológica de defesa de um pensamento liberal, entre aspas, e contrário ao governo, que tem tentado, de alguma forma, criar algum constrangimento a professores que têm outra posição sobre a conjuntura que o país está vivendo. Mas ainda podem ser consideradas situações normais e não vinham sendo motivo de grandes preocupações.

Mas tivemos um caso preocupante aqui na Pós-Graduação das Ciências Sociais, que é um curso que lida com temas bastante polêmicos do ponto de vista político, sob uma  perspectiva científica. Como ocorre todos os anos, nós fizemos em dezembro a seleção para o mestrado e um aluno que foi selecionado em 19º lugar (em um total de 20 vagas) ingressou no Programa. Esse aluno tinha no currículo uma formação em Direito na USP e outra em Administração na Fundação Getúlio Vargas, uma formação considerada boa do ponto de vista de uma seleção de mestrado, embora não tivesse apresentado nenhuma produção acadêmica. Uma coisa chamou a atenção da banca de seleção: no seu currículo, ele dizia ser funcionário da Abin (Agência Brasileira de Informação) e que , para ingressar na agência que sucedeu o SNI (Serviço Nacional de Informações) ele teve que fazer cursos de investigação e espionagem via internet, entrevistas de suspeitos e de operações especiais. Mas ninguém levou isso muito a sério. Era um aluno com formação em Direito e Administração, querendo fazer mestrado em Ciências Sociais, que acabou entrando nestas 20 vagas que o curso oferece.

Sul21: Quais foram os problemas enfrentados neste caso?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: No início de março começaram as aulas. A primeira aula foi ministrada pelo professor da disciplina de “Movimentos e Organizações Sociais”. Esse aluno, já nesta primeira aula, se mostrou muito interessado em confrontar o professor e os colegas, dizendo que a visão dele (aluno) era uma visão liberal e que gostaria que os temas fossem discutidos a partir dos autores que ele achava importantes e não aqueles que estavam sendo apresentados pelo professor. Também disse que os alunos que estavam ali eram, em sua maioria, bolsistas e representantes de minorias, o que, para ele, era muito estranho, pois não aceitava bolsa. Por fim, ele acabou acusando o professor de incitação à violência, por discutir o papel dos movimentos sociais no tensionamento da ordem estabelecida. A bibliografia utilizada por esse professor é, basicamente, ligada à Escola de Frankfurt, com nomes como Habermas, Honneth e outros nomes atuais que estão filiados à tradição dessa escola que é absolutamente legítima dentro das Ciências Sociais. O aluno considerava essa bibliografia inadequada por ter, na visão dele, vinculação com o marxismo.

Na aula, o clima ficou tenso e alguns alunos se confrontaram com ele. Se a situação tivesse ficado apenas neste âmbito acho que não teria havido maiores consequências. No entanto, neste mesmo dia ele foi para casa e escreveu um post no Facebook, dizendo que a turma era formada por minorias, que ele nem sabia quais eram, que ele tinha se sentido constrangido pois não era aceito dentro da turma, que a maioria da turma era ligada ao PT e tinha votado na Dilma nas últimas eleições, o que mostraria uma falha no processo seletivo da PUC. Além disso, acusou o professor de incitar a violência dos movimentos sociais, o que era algo muito grave e perigoso e que ele tomaria providências em relação a isso.

No mesmo dia, isso chegou ao meu conhecimento como coordenador do programa de pós-graduação e eu chamei ele para conversar, pois havia se criado um clima de constrangimento e insegurança na turma. Eu conversei com ele na mesma semana em que essa aula aconteceu. Ele chegou acompanhado de um assessor do deputado Marcel van Hattem.

Sul21: Ele se apresentou como assessor do deputado van Hattem?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Sim. Ele foi apresentado como assessor do deputado. Eu disse a eles, então, que a conversa dizia respeito a uma questão interna do programa e que seria uma conversa minha com esse aluno, sem a participação de terceiros. O assessor do deputado aceitou a minha argumentação, os dois conversaram entre eles e ele foi embora. Tivemos então uma conversa de uma hora e dez minutos nesta mesma sala. Antes dele argumentar qualquer coisa eu falei sobre o que ele havia escrito no Facebook, agredindo o programa de pós-graduação, o professor e os colegas. Disse ainda que ele estava entrando em um curso de pós-graduação onde os professores são avaliados pela instituição pela sua produção acadêmica que é, por sua vez, avaliada pela Capes, uma instituição criada para o monitoramento das pós-graduações e que analisa o que é feito a partir de publicações científicas que também são hierarquizadas.

Falei também que cabia a cada professor definir o tema, a bibliografia e a metodologia utilizada em aula, e que isso não era objeto de discussão. Disse que, se ele não estava satisfeito com isso e achava que tinha feito uma escolha errada, poderia reavaliar sua permanência no curso. Mas se a decisão fosse por continuar no curso, teria que aceitar as regras de funcionamento do mesmo. Ele tentou argumentar, dizendo que no exterior as coisas não eram assim, que os alunos tinham muito mais autonomia para apresentar suas visões e havia muito mais preocupação com a pluralidade. E me perguntou se, no curso de pós-graduação, havia algum professor cuja visão fosse mais próxima da dele. Respondi que o programa tem dez professores, com várias visões, inclusive próximas da dele em relação a crítica ao atual governo. A conversa ficou por aí.

No outro dia, ele escreveu um post em uma rede social dizendo que havia conversado com o coordenador do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da PUC e que este teria dado o passo-a-passo de toda a doutrinação ideológica dos programas de pós-graduação. “Só que ele não sabia que eu tinha um i-phone”, acrescentou, sugerindo que tinha gravado toda a conversa. Isso ocorreu numa sexta-feira. Na segunda-feira vim para a PUC já disposto a conversar com o setor jurídico para informar o que estava acontecendo e ver as providências a serem tomadas. Quando cheguei aqui no programa, havia várias ligações do assessor do deputado van Hattem. Eu liguei para ele, que me disse o seguinte: “Eu estive aí com esse aluno, mas nós constatamos que a situação não era aquela que ele havia nos colocado. Então, nós não estamos dando guarida para essa ação dele. O nosso mandato atua na defesa de vários alunos que têm sofrido perseguição ideológica e doutrinação ideológica nas escolas e faculdades, mas sabemos que na pós-graduação as coisas são diferentes”. Me parece que verificaram o conteúdo da gravação e avaliaram que não havia o que pudesse ser utilizado contra mim ou contra a instituição. De fato, eu não disse nada que não fosse institucional. Eu até imaginava que ele pudesse estar me gravando, mas eu diria a mesma coisa em qualquer situação.

Sul21: Você já suspeitava que poderia ter a conversa gravada?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Sim, eu suspeitava. Nós temos tido situações envolvendo professores e alunos que têm gerado certo desconforto. Muita gente já me disse: ‘não conversa com aluno sozinho’. Eu nunca adotei esse tipo de procedimento, acho bom ter uma relação de confiança com alunos e orientandos. Mas há colegas que já foram acusados de assédio sexual e assédio moral. Aí, até provar que a situação não é aquela (se de fato não é), a pessoa já está condenada nas redes sociais. Então, tem muita gente que está preocupada com isso. Eu nunca havia me deparado com uma situação como esta, mas suspeitei que ele poderia tentar fazer uma gravação ou algo do tipo. Quando ele chegou com um assessor do deputado, aí eu senti que era uma situação mais delicada mesmo e me precavi. Mas a minha conversa foi totalmente espontânea. Falei para ele o que falaria para qualquer outro aluno.

A assessoria jurídica da PUC me informou que, pelo regimento, ele não poderia ser expulso simplesmente por esse fato, mas poderia sofrer uma advertência do coordenador do programa. Fiquei aguardando ele retornar ao curso para encaminhar a advertência, mas ele não apareceu. Então  publicou um terceiro post, alguns dias depois, com a gravação de nossa conversa de uma hora e dez minutos. Junto com a gravação, ele publicou uma carta dirigida a mim, que não tem nada a ver com o conteúdo gravado. Pouca gente vai ouvir uma hora e dez minutos de uma conversa sem maior interesse. O objetivo da carta era criar um clima para afirmar que a conversa era uma prova da existência de uma doutrinação ideológica marxista no curso. Segundo ele, nove dos dez professores do programa seriam marxistas. A PUC já estava alerta e eu procurei novamente o jurídico e também a assessoria de comunicação da Universidade. A sugestão foi mais uma vez pela advertência e, se ele fizesse mais alguma coisa, estaria fora.

Sul21: Enquanto tudo isso ocorria, ele seguiu participando das aulas?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Não, ele compareceu somente naquela primeira aula. Se ele quisesse produzir uma crítica mais embasada e profunda sobre o Programa deveria ao menos ter assistido mais aulas e conhecido outros professores. Mas não, ele veio a apenas uma aula. A repercussão do que ele publicou ficou restrita basicamente à rede da qual ele participa. No final do ano passado, o blog de um jornalista gaúcho havia publicado um texto dizendo que, nas Ciências Criminais da PUC, havia vários alunos reclamando de doutrinação ideológica de professores petistas e comunistas. Eu era um dos citados, junto com outros colegas meus. Mas, desta vez, não houve maior repercussão, apesar de um grande número de compartilhamentos entre os seguidores do aluno.

No último capítulo desse caso, eu redigi uma carta de advertência para ele e encaminhei via correio. Ele recebeu a carta e publicou um último post dizendo que estava desistindo de fazer mestrado na PUC, porque aqui não havia espaço para as ideias dele, que éramos um bando de doutrinadores comunistas e que ele estava indo para Harvard…

Sul21: Por que você decidiu falar sobre esse episódio?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Quem ouve toda essa história pode achar que se trata de um maluco que não oferece grande perigo. Eu não acho que seja isso. Trata-se de alguém articulado, com alguma formação acadêmica. Além disso, eu relatei esse episódio para uma rede de colegas das Ciências Sociais do país inteiro e uma colega minha de São Paulo disse que esse mesmo sujeito havia feito algo muito parecido na FGV contra o cientista político Cláudio Couto, um pesquisador reconhecido que é da direção da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais). Ele fez um movimento pela demissão do Cláudio Couto porque ele estaria defendendo o PT e o PT seria um grupo criminoso que teria matado o Celso Daniel. Parece que, na FGV, ele conseguiu algum apoio entre colegas, coisa que, aqui na PUC, não aconteceu. Aqui caiu no vazio, a partir da gravação que ele fez comigo.

Outra razão que me levou a falar sobre o caso foi o fato de que ele fez a postagem com a gravação numa sexta-feira e na segunda-feira seguinte, Luiz Felipe Pondé publicou um artigo na Folha de S.Paulo falando sobre a “doutrinação ideológica” nas universidades brasileiras e como ela funcionaria a partir da concessão de bolsas e de controle de recursos que seriam direcionados para alunos e professores que concordam com o governo. Antes disso, Fernando Schüller publicou recentemente um artigo na revista Época sobre a suposta “contaminação comunista” dos livros didáticos do MEC para o segundo grau. Eu acredito que a atitude desse aluno está vinculado a um movimento mais amplo que envolve não só a derrubada do governo, mas também a ocupação de espaços, que esse grupo acredita, foram perdidos no âmbito acadêmico, discurso muito repetido por Olavo de Carvalho, entre outros.

Esse aluno participa também de uma rede de formação de jovens de direita, ou “liberais”, que eu sempre coloco entre aspas, pois liberais não se comportam dessa maneira. Essa rede conta com a participação de várias figuras importantes  na área de ciência política, que defendem uma ideologia mais à direita. Se o resultado dessa formação se limitasse a uma disputa de ideias não haveria problema algum. A academia é plural e essa disputa de ideias é importante. O problema é que se o método é esse de gravações escondidas e ataques pessoais, aí tem alguma coisa errada. Alguém que grava conversas de forma clandestina no ambiente acadêmico pode editar tais conversas e publicá-las de forma totalmente deturpada, entre outras coisas. Por isso acho importante que isso venha a público.

Sul21: Essas acusações dando conta de uma suposta doutrinação marxista na universidade e nas escolas começaram há alguns anos, feitas por algumas figuras meio caricatas. Mas, graças aos espaços que ganharam na mídia, essas acusações parecem que vem crescendo de dimensão. Além disso, há relatos de situações similares a estas que você vivenciou em outras universidades e escolas também. Como você avalia esse fenômeno?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Embora os argumentos sigam caricaturais, pela abrangência que vêm ganhando e pela aceitação que acaba tendo dentro da mídia e dentro de uma sociedade muito polarizada, isso ganhou repercussão. É preciso assinalar que, mesmo dentro das Ciências Sociais, o pensamento marxista hoje está muito marginalizado. Desde os anos 80, com a queda do Muro de Berlim e do chamado socialismo real, houve um aprofundamento do debate teórico e até metodológico que trouxe outras influências. A teoria social contemporânea incorporou alguns elementos de Marx, mas incorporou várias outras coisas também. Por isso, para nós, essa conversa de “doutrinação marxista” é algo muito estranho.

A realidade da universidade no Brasil, hoje, não tem nada a ver com isso. Na verdade, o que eles chamam de marxismo é qualquer coisa que envolva a defesa de direitos humanos, direitos sociais, de “minorias”, e de tudo o que, nestes últimos doze anos, possa ter significado um avanço social. Com todas as críticas que se possa ter, os governos do PT avançaram muito deste ponto de vista. Lula promoveu no Brasil uma espécie de pacto social, trazendo para o governo outros partidos e outros setores, incluindo o empresariado. Em troca disso, conseguiu inserir na agenda do País o combate à miséria, ações afirmativas, políticas de enfrentamento da violência contra a mulher e uma série de outras coisas que não estavam na pauta política nacional. Isso tem alguma coisa a ver com marxismo? Não tem nada a ver. Está mais para uma agenda social-democrata, de ampliação do Estado democrático de direito para setores que, historicamente, ficaram de fora. Foi isso o que aconteceu no Brasil.

Dentro da universidade existem, sim, pessoas e grupos que têm afinidade com o que foi feito neste período e que se contrapõem a uma forma de fazer oposição ao governo que é muito pouco democrática, não aceitando o resultado das eleições de 2014. Desde os resultados eleitorais, se tenta, de alguma forma, derrubar o governo, seja por pedidos de recontagem de votos, por impeachment por pedaladas, impeachment por financiamento de campanha. Os argumentos vão mudando ao longo do tempo, mas o objetivo é o mesmo. É isso que unifica e dá uma lógica para a oposição, só que essa lógica é muito perigosa para a democracia. Além de não respeitar o resultado do voto popular, ela deu proeminência para grupos que não têm nenhum compromisso com a democracia. São grupos fascistas, de negação do outro, ligados a movimentos como o Vem Pra Rua, Revoltados Online, Movimento Brasil Livre, Banda Loka Liberal, entre outros.

A universidade brasileira avançou muito nas últimas décadas a partir de critérios de produção científica. Isso deu um status à produção acadêmica brasileira que ela não tinha no mundo. Esse discurso de uma suposta doutrinação marxista dentro da universidade é totalmente descolado da realidade, mas está vinculado a uma forma de fazer política, que pretende produzir, esse sim, um pensamento único. Segundo esse pensamento, não se pode defender o governo porque ele é criminoso, tudo o que está ligado ao governo está ligado a um pensamento marxista, bolivariano, comunista, seja lá o que for, e isso tem que ser derrubado pois esta é a única maneira de o Brasil se manter dentro de uma perspectiva liberal capitalista. É esse discurso ideológico que foi sendo construído ao longo dos últimos anos, a partir de uma ideia falsa tanto em relação à academia quanto em relação ao governo.

A esquerda latino-americana tem experiências mais ou menos democráticas. Poucas são tão democráticas como o que o PT fez neste período, sendo, aliás, criticado por não ter entrado no debate sobre o controle da mídia, por ter colocado no Supremo Tribunal Federal pessoas que não têm um alinhamento ideológico com o governo, pelo contrário, e também por ter implementado essa ideia de um pacto, o que está muito ligado ao pensamento do lulismo. O PT fez muitas concessões e ninguém pode falar que o governo foi autoritário ou totalitário. O problema é que, para construir a narrativa do impeachment, se bateu repetidamente sobre essa tecla de um suposto “totalitarismo” petista.

Várias revistas, jornais, televisões e outros meios de comunicação desempenharam um papel fundamental neste processo ao longo dos últimos anos, minimizando os pontos positivos do governo e maximizando a visibilidade da crítica. O Jornal Nacional não exibiu, por exemplo, o vídeo com o discurso da Janaína Paschoal, que mostraria quem é a pessoa que está defendendo o impeachment no Congresso. Imagine se a Dilma, que inclusive foi chamada de perturbada e desequilibrada pela revista Isto É, fizesse um discurso como aquele… Eles estão com uma espécie de carta branca para agir. É uma guerra suja, uma forma de atuação política que a gente já conhece porque a direita brasileira, historicamente, faz esse tipo de coisa, e que tem tido uma tolerância e até uma adesão por parte da mídia e, eu diria até, por parte das instituições.

Trabalho com pesquisas sobre a Polícia e o Poder Judiciário e sei que dentro dessas instituições existem grupos que estão vinculados a essa ideologia de que é preciso derrubar o governo a qualquer preço, o que tem gerado conexões entre todas essas estruturas que se movimentam em torno dessa proposta. Isso é grave porque, num estado democrático de direito, quando uma coisa dessas acontece, as instituições têm que funcionar para proteger o cidadão que está sofrendo esse tipo de ameaça. Hoje, não há confiança de que isso vá acontecer. Estamos entrando numa espécie de vale tudo, que precisa ser evitado por quem tem compromisso com a democracia.

Sul21: No último grande ato no Parcão, realizando por esses movimentos que defendem a derrubada do governo, as referências políticas e teóricas exibidas no caminhão que servia de palanque para a manifestação eram nomes como Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Von Mises, que a maioria dos que estavam ali não deveria saber quem era. Temos um fenômeno social e político novo aí, com uma pequena vanguarda de extrema-direita dirigindo expressivos setores da classe média?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Acredito que sim e isso está muito próximo do debate político norte-americano, onde os democratas e o Obama especialmente são chamados de comunistas pelo Tea Party. Esse grupo dentro do Partido Republicano tem, hoje, os principais candidatos que disputam a indicação para concorrer à Casa Branca. O deputado Marcel van Hattem participou de eventos deste grupo nos Estados Unidos. Recentemente, foi divulgado um vídeo nas redes sociais mostrando o deputado fazendo uma pergunta em um desses encontros. Os grupos que tem liderado as manifestações contra o governo no Brasil estão se negando a informar de onde vem os recursos que estão recebendo, dizendo que se trata apenas de contribuições voluntárias. Então, há de fato uma direita mais orgânica, com articulações internacionais, se organizando no Brasil e em outros países da América Latina.

Esse grupo ainda não tem uma organicidade política. O PSDB não é a referência para eles, até porque consideram os tucanos culpados pela ascensão do PT e incapazes de fazer uma oposição sólida. Eles querem outra coisa e já há inclusive iniciativas neste sentido. A própria situação do Van Hattem é desconfortável dentro do PP, porque como ele pode sustentar esse discurso de combate à corrupção quando o seu partido é um dos que tem mais envolvidos nas denúncias da Lava Jato?

Sul21: Voltando ao ambiente universitário, você referiu que já há um certo receio de alguns professores de conversar a sós com estudantes, por temer coisas como gravações clandestinas ou denúncias de assédio feitas nas redes sociais. Na sua opinião, há um crescimento deste clima de desconfiança dentro da academia?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Eu não sei qual é a realidade em outras instituições. Aqui na PUC eu não posso dizer que tenha havido qualquer tipo de respaldo a atitudes como esta que relatei. Pelo contrário, a PUC tem hoje uma forma de ação acadêmica totalmente isenta, no sentido de que os professores têm total autonomia desde que respeitem os critérios científicos estabelecidos pela Capes. Mas, sim, entre os professores têm crescido a preocupação por causa de condutas como a que relatei. Gravações feitas sem o conhecimento do professor e divulgadas nas redes sociais, falas que são retiradas de contexto e coisas desse tipo. Que haja preocupação com o que é dito em sala, e que os alunos se mobilizem para cobrar da instituição critérios claros de relacionamento acadêmico, evitando constrangimentos, assédio ou falta de critérios por parte dos professores é uma coisa. Por isso mesmo temos um código de ética na instituição que estabelece regras para os seus integrantes. Outra coisa é a caça às bruxas dirigida contra um tipo de pensamento (de esquerda), como se ele fosse inaceitável. Quando esse fato aconteceu aqui na PUC os meus colegas ficaram muito preocupados. Por mais que a gravação feita pelo aluno não tivesse nada que pudesse ser usado contra mim ou contra a instituição, ela causa um constrangimento. Para as pessoas que não gostam de mim, que acham que eu sou um esquerdista defensor de criminosos, é mais um argumento. Não interessa se é verdadeiro ou não, ele vai ser julgado nas redes sociais.

O clima é muito preocupante porque neste momento há um movimento organizado para a deslegitimação de professores que têm posição política. Eu não faço doutrinação ou política partidária em sala de aula. Quando aparece um tema da atualidade, eu procuro mostrar as diferentes visões que existem sobre esse tema. Acho importante que o professor não suba no palanque quando está em sala de aula, mas isso não impede que eu use outros espaços na minha condição de cidadão. O objetivo deles é justamente criar esse tipo de constrangimento. Professores horistas, que não estão na pós-graduação, estão em início de carreira e ainda não tem uma produção acadêmica tão reconhecida, estão numa situação de maior fragilidade e já manifestam bastante receio neste momento. Isso envolve também professores de segundo grau. Há algum tempo, a revista Veja fez uma matéria contra um professor de história de uma escola tradicional de Porto Alegre, acusando-o de “doutrinação marxista”. A situação é realmente muito preocupante pelo crescimento desses casos.

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As razões dos atentados terroristas que vitimaram mais de 90 pessoas na Noruega na última sexta-feira (22) ainda não estão totalmente esclarecidas, mas nos escritos e declarações do autor confesso do crime revelados no domingo (24), há claros indicadores de uma perigosa ameaça às liberdades democráticas e à segurança da humanidade: o surgimento de um novo tipo de fascismo, cujas origens estão no seio da própria sociedade capitalista ocidental.

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