Dilma: Universidades têm as cores de nosso povo porque temos cotas

A inclusão de toda a população negra e a capacidade de garantir oportunidades iguais é uma questão essencial para qualquer governo, declarou a presidenta Dilma Rousseff, nesta quinta-feira (19), em cerimônia alusiva ao Dia Nacional da Consciência Negra, que é comemorado em 20 de novembro.

Agência Brasil

“Chegamos até aqui, mas asseguro a vocês que nesse meu mandato a igualdade de oportunidade de direitos continuará sendo nossa diretriz”, garantiu a presidenta“Chegamos até aqui, mas asseguro a vocês que nesse meu mandato a igualdade de oportunidade de direitos continuará sendo nossa diretriz”, garantiu a presidenta

Ressaltando que no último censo mais de 54% da população brasileira se declarou negra e descendente de negros, a presidenta elencou uma série de políticas públicas que têm sido desenvolvidas nos últimos anos e que têm contribuído para mudar a questão racial no país.

“Se hoje as universidades brasileiras começam a ter as cores de nosso povo, é porque temos a política de cotas, e temos também o Prouni e temos o Fies. É fundamental lembrar que, no Brasil, a pobreza sempre teve uma cor predominante. Sempre teve como predominante a cor negra. Por isso, os impactos positivos do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, da formação técnica para a população negra são maiores.”

Dilma afirmou que tanto as cotas nas universidades e nos institutos federais de educação, como as cotas no serviço público federal, fazem parte de um processo que não pode parar.

“É o processo de inclusão de toda a população negra, garantindo que todos tenham acesso às oportunidades que levarão à definição ao longo da sua trajetória de vida a ter aquilo que têm capacidade de conquistar”, disse.

Dilma dirigiu uma saudação especial às mulheres negras presentes à cerimônia, destacando a importância da Marcha das Mulheres Negras, realizada na quarta-feira (18), em Brasília. O ato, segundo ela, mostrou a força das mulheres negras, “sua capacidade de luta, sua dignidade e toda sua cultura”.

Apesar dos avanços até então conquistados, a presidenta disse que muito mais tem que ser feito. “Chegamos até aqui, mas asseguro a vocês que nesse meu mandato a igualdade de oportunidade de direitos a todos brasileiros e brasileiras, e aqui marcadamente aos negros e negras do meu país, continuará sendo nossa diretriz.”

Dilma afirmou que, por causa dos séculos em que houve escravidão no país, é necessário ter a consciência de que é necessário privilegiar aqueles que “permaneceram por séculos apartados ou até desconsiderados na divisão dos frutos da riqueza e do desenvolvimento”. Isso, segundo a presidenta, exige ações afirmativas e ações de resgate histórico.

Quilombolas

Dilma fez uma menção especial às comunidades quilombolas, pela sua importância em honrar o sonho da liberdade e a história de lutas das negras e negros brasileiros. Durante a cerimônia, foram entregues títulos definitivos de reconhecimento de domínio e contratos de concessão de direito real de uso às comunidades Lagoa dos Campinhos, em Amparo do São Francisco e Telha (SE); Serra da Guia, em Poço Redondo (SE); Conceição das Crioulas, em Salgueiro (PE); São José da Serra, em Valença (RJ); Cafundó, em Salto de Pirapora (SP); São Pedro, em Ibiraçu (ES); e Kalunga, nos municípios de Cavalcante, Teresinha de Goiás e Monte Alegre (GO).

“Alegra-me assinar os decretos de desapropriações de terra em favor das comunidades quilombolas, concluir o processo de legalização dessas terras. Com todos esses processos, mais famílias passarão a contar com a segurança de ter terra para viver, terra para produzir, terra para honrar e preservar suas tradições”, anunciou. Declarou ainda que o governo está empenhado em assegurar instrumentos para gerar mais inclusão produtiva e desenvolvimento nessas comunidades.

Fonte: Blog do Planalto

Anúncios

O legado de um guerreiro chamado Abdias do Nascimento

No dia 20 de novembro de 1983, o então deputado federal Abdias do Nascimento participou do ato de inauguração do Memorial em homenagem a Zumbi dos Palmares na Serra da Barriga, em Alagoas. Num discurso de improviso e emocionante, Abdias mostra a força da resistência do negro.

Reprodução

“Meus irmãos, eu invoco o poder e a força de Olorum, nosso pai. Eu invoco o poder guerreiro de Ogum. Eu invoco Xangô das tempestades. Eu invoco Oxum, a deusa do amor. Eu invoco aqui Iansã a guerreira. É com esses deuses e líderes que nós, os negros deste país, subimos de joelhos a sua terra, Zumbi. Subimos de joelhos nestas terras encharcadas do teu sangue. E é aqui, Zumbi, que nós te prometemos: a luta não vai parar. Os exploradores do negro não vão ter descanso enquanto a toda a n ação negro-africana não for definitivamente livre”, profetizou.

Essa foi uma das marcas de Abdias do Nascimento. Bacharel em economia, artista plástico, ator e diretor teatral, parlamentar e, principalmente, um militante da luta pela igualdade racial, Abdias faleceu em 24 de maio de 2011, aos 97 anos, deixando um legado de conquistas.

Nascido em Franca, interior de São Paulo, em 1914, Abdias foi pioneiro do movimento negro no Brasil. Já nos anos 1930, entrou para Frente Negra Brasileira, uma das primeiras entidades de organização do movimento negro no país.

Mas numa de suas últimas entrevistas, Abdias afirmou que a sua atuação contra o racimo começou cedo. Ele conta que ainda menino, quando voltava da escola com a mãe, viu o colega de escola, chamado Felizbirno, ser agredido por uma vizinha.

“O garoto era negro e órfão de pai e de mãe e vivia quase da caridade pública porque não tinha casa, nem onde comer. Ele estava sendo espancado por uma vizinha. Aquilo revoltou tanto a minha mãe que ela, da condição de pessoa pacífica e pacata, saiu em defesa daquela criança. Aquela revolta dela passou para mim e eu também fui em defesa de Felizbirno. Dali para frente, dos meus sete ou oito anos, comecei a escrever essa história”, contou.

20 de novembro para AbdiasNuma entrevista concedida ao Brasil de Fato, Abdias destacou a importância do 20 de novembro. “O dia 20 de novembro simboliza a resistência dos africanos contra a escravatura. Essa resistência assume diversas expressões táticas e perpassa todo o período colonial. Durante esse período, em todo o território nacional, havia quilombos e outras formas de resistência que, em seu conjunto, desestabilizaram a economia mercantil e levaram à abolição da escravatura. Esse é o verdadeiro sentido da luta abolicionista, cujos protagonistas eram os próprios negros. Eles se aliavam a outras forças, mas, muitas vezes, foram traídos por seus aliados. Mais tarde, entretanto, a visão eurocêntrica da história ergueria os aliados como supostos atores e heróis da abolição. A comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra em 20 de novembro tem como objetivo corrigir esse registro histórico e reafirmar a necessidade de continuarmos, nós, os negros, protagonizando a luta contra o racismo que ainda impera neste país”, disse.

Abdias era incansável nessa luta. Nos anos 40, criou o Teatro Experimental do Negro, numa ação para romper as barreiras de inserção do negro nos espaços artísticos e sociais. A inciativa revelou talentos da dramaturgia nacional, como as atrizes Ruth de Souza e Léa Garcia.

Ao mesmo tempo, fundou o Comitê Democrático Afro-Brasileiro e advogou por direitos para as empregadas domésticas e políticas afirmativas para a população negra.

As ações culminaram no 1º Congresso do Negro Brasileiro, realizado em 1950. Com a promulgação do Ato Institucional nº 5, Abdias foi perseguido pelos militares e foi obrigado a exilar-se nos Estados Unidos, em 1968, de onde só retornou dez anos depois, em 1978.

De acordo com documento de 24 de outubro de 1979 do IV Exército de Recife, revela com detalhes que o regime considera a movimentação das organizações negros como foco de “problemas”.

O relatório revelou ainda que os agentes se infiltraram em entidades dedicadas ao estudo da cultura negra, por meio de palestras em reuniões e simpósios, como a IV Semana de Debate sobre a Problemática do Negro Brasileiro, em abril de 1978 na Bahia. Segundo os militares, o evento tratava de temas como “a tão falada democracia racial não passa de um mito”, “o racismo no Brasil é pior do que no exterior, porque é sutil e velado”, “a existência da Lei Afonso Arinos, contra o racismo, é prova de que ele existe”, “a Abolição da Escravatura foi imposta pelas necessidades da economia capitalista e não por uma preocupação sincera com a situação do negro”.

Ainda de acordo com o relatório, os arapongas relatam o ciclo de palestras do Núcleo Cultural Afro-Brasileiro, em Salvador, do qual participaram lideranças como o deputado federal baiano Marcelo Cordeiro e o paulista Abdias do Nascimento, professor emérito na Universidade de Nova York.

Parlamentar

Militante do PTB e, posteriormente, fundador do PDT, Abdias teve grande influência na fundação do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978. No PDT, criou no início dos anos 1980 a Secretaria do Movimento Negro, que fortaleceu sua atuação como parlamentar.

Ele foi o autor do projeto que pede que o dia 20 de novembro seja feriado nacional pelo aniversário da morte de Zumbi dos Palmares. Também apresentou projeto de lei que previa a criação de uma cota de 20% de vagas para mulheres negras e de 20% para homens negros na seleção de candidatos ao serviço público, hoje aprovada pelo Supremo Tribunal Federal. .

Seus projetos e a atuação do movimento negro levaram a questão racial para o debate durante a Assembleia Nacional Constituinte garantindo, por exemplo, que a prática de racismo torna-se crime inafiançável e determinou-se pela primeira vez a demarcação das terras dos remanescentes de quilombos. Abdias também foi um dos responsáveis pela instituição da Comissão do Centenário da Abolição em 1988, que resultou na criação da Fundação Cultural Palmares.

O professor da Universidade de São Paulo (USP) Kabengele Munanga, congolense especialista em Antropologia das Populações Afro-Brasileiras, afirma que uma das grandes contribuições de Abdias foi a introdução do ensino de história da África e dos negros nas escolas, a partir da publicação das revistas Sankofa e Thoth – Escriba dos Deuses – Pensamento dos povos africanos e afrodescendentes, enquanto era senador.

“As duas revistas oferecem textos, imagens e ilustrações que enfocam uma África autêntica e suas contribuições na civilização universal, além de apresentar uma história do negro brasileiro que rompe com a historiografia colonial e racista que até agora permeia muitos livros e materiais didáticos. A Lei 10.639, de 2003, que torna obrigatório o ensino da história do negro e da África no ensino básico brasileiro, pode ser considerada uma consagração das propostas do senador Abdias nas revistas Thoth e Sankofa”, enfatizou.

Do Portal Vermelho, com informações de agências

Solano Trindade o ícone cultural que desafiou o determinismo social

O poeta Solano Trindade nasceu no Recife, no bairro do São José, no dia 24 de julho de 1908. Filho de um sapateiro, mudou-se para o Sudeste do país, no início dos anos 1940, vivendo em Belo Horizonte e Pelotas. Depois de um breve retorno ao Recife, muda-se para o Rio de Janeiro, onde funda o Comitê Democrático Afro-Brasileiro.

Por Clóvis Campêlo*, no blog Geleia General

Clovis Campêlo

A estátua de Solano Trindade com uma intervenção popularA estátua de Solano Trindade com uma intervenção popular

Vai depois para São Paulo, onde funda o Teatro Popular Brasileiro fez parte do grupo de artistas plásticos Sakai de Embu. Também participou do filme A hora e a vez de Augusto Matraga. Faleceu no Rio de Janeiro, em 19 de fevereiro de 1974.

Antes de emigrar, porém e se transformar em mais um nordestinado no sudeste brasileiro, idealizou no Recife, em 1934, o 1º Congresso Afro-Brasileiro. Dois anos depois, em 1936, participou em Salvador do 2º Congresso Afro-Brasileiro. Em 1936, também, ainda no Recife, fundou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-brasileira, para divulgar o trabalho de artistas e intelectuais negros.

O site Causa Operária, em texto publicado quando das comemorações dos 35 anos do falecimento do poeta e militante, disse o seguinte: “Dos escritores negros que deixaram sua marca na literatura brasileira, Solano Trindade foi um dos mais significativos. Isso porque foi o primeiro, e talvez o mais contundente a se dirigir, não impessoalmente a toda a população, mas também, particularmente à população negra, descrevendo os mais graves problemas sociais vividos pelos negros brasileiros, e dos quais se tornou um dos mais ilustres artistas”.

Ainda segundo o site acima citado: “No início de sua vida artística, estudou um ano no Liceu de Artes e Ofícios, mas abandonou um estudo mais aprofundado em artes plásticas para se dedicar principalmente à poesia, onde iria se tornar um dos mais expressivos símbolos nacionais da resistência negra ao racismo e à opressão social. Sua fase literária mais importante inicia-se na década de 1930, quando escreve seus primeiros poemas retratando as dificuldades vividas pelos negros então no país”.

Segundo o Diario de Pernambuco, em matéria publicada no dia 11/5/2014, quando do 40º aniversário da sua morte, Solano Trindade nasceu vinte anos após a abolição da escravatura, em 1908, filho de sapateiro mulato e de doméstica cafuza. E mais: “A despeito do sangue branco e indígena nas veias, não houve confusão a respeito da raça do menino. Cresceu ouvindo a zombaria: ‘Oh, meu Deus, matai o Solano. Este negro feio, de beiço grande’. Era pobre e vivia em uma época difícil para os seus, mas foi capaz de contrariar o determinismo social e econômico para se revelar um ícone da cultura brasileira”.

“As poesias de Solano estão repletas de referências aos ritmos, costumes, religiões africanas, além de mitos e lendas do povo negro. Ele foi pioneiro ao “ressignificar o ranger dos grilhões, gemidos, murmúrios e silêncios da senzala”, acrescenta a doutora em teoria literária Silvana Maria Pantoja”, ainda na matéria do DP.

A escultura do poeta está no Pátio de São Pedro, na esquina com o Beco do Veado Branco, cenário de um dos mais importantes polos de animação e de manifestação da cultura negra no Recife.

No dia em que fizemos a fotografia acima, a escultura estava com a cabeça coberta por um chapéu de palha, numa interferência popular bem humorada. Acho que o poeta deve ter gostado daquilo.

*Clóvis Campêlo é escritor

Solano Trindade – tem gente com fome!

O poeta Solano Trindade (1908-1974) foi operário, cineasta, pintor, ator de cinema, homem de teatro, e militante comunista.

Arquivo
Solano Trindade foi um militante cultural notável, e desde a década de 1930 participou da criação de organizações da luta do povo

Solano Trindade foi um militante cultural notável, e desde a década de 1930 participou da criação de organizações da luta do povo

Quando nasceu, no Recife (PE), a escravidão havia sido abolida há vinte anos. Mas o racismo era a realidade permanente, que enfrentou desde menino. Mais tarde, usou sua arte múltipla para denunciar o racismo, as discriminações, e a luta do povo para enfrentar essas mazelas. Filiado ao Partido Comunista, foi perseguido e a polícia invadiu sua casa inúmeras vezes, desde o a época do governo do general Eurico Gaspar Dutra, na década de 1940.

Foi um militante cultural notável, e desde a década de 1930 participou da criação de organizações da luta do povo, como a Frente Negra Pernambucana, o Centro de Cultura Afro-Brasileiro, o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, o I Congresso Afro-Brasileiro, o Teatro Experimental do Negro, Teatro Folclórico Brasileiro, o Teatro Popular Brasileiro, entre inúmeras outras.

Leia na íntegra:

Poemas da luta do povo

Tem gente com fome

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio do ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu

Sou Negro

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh`alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs
Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu

Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso
Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh`alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação

Canta América

Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador…

Conversa

– Eita negro!
quem foi que disse
que a gente não é gente?
quem foi esse demente,
se tem olhos não vê…

– Que foi que fizeste mano
pra tanto falar assim?
– Plantei os canaviais do nordeste

– E tu, mano, o que fizeste?
Eu plantei algodão
nos campos do sul
pros homens de sangue azul
que pagavam o meu trabalho
com surra de cipó-pau.

– Basta, mano,
pra eu não chorar,
E tu, Ana,
Conta-me tua vida,
Na senzala, no terreiro

– Eu…
cantei embolada,
pra sinhá dormir,
fiz tranças nela,
pra sinhá sair,
tomando cachaça,
servi de amor,
dancei no terreiro,
pra sinhozinho,
apanhei surras grandes,
sem mal eu fazer.

Eita! quanta coisa
tu tens pra contar…
não conta mais nada,
pra eu não chorar –

E tu, Manoel,
que andaste a fazer
– Eu sempre fui malandro
Ó tia Maria,
gostava de terreiro,
como ninguém,
subi para o morro,
fiz sambas bonitos,
conquistei as mulatas
bonitas de lá…

Eita negro!
– Quem foi que disse
que a gente não é gente?
Quem foi esse demente,
se tem olhos não vê.

Eu gosto de ler gostando

Eu gosto de ler gostando,
gozando a poesia,
como se ela fosse
uma boa camarada,
dessas que beijam a gente
gostando de ser beijada.

Eu gosto de ler gostando
gozando assim o poema,
como se ele fosse
boca de mulher pura
simples boa libertada
boca de mulher que pensa…
dessas que a gente gosta
gostando de ser gostada.

Olorum ÈKE

Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê

Nem só de poesia vive o poeta

Nem só de poesia vive o poeta
há o “fim do mês”
o agasalho
a farmácia
a pinga
o tempo ruim, com chuva
alguém nos olhando
policialescamente
De vez em quando
um pouco de poesia
uma conta atrasada
um cobrador exigente
um trabalho mal pago
uma fome
um discurso à moda Ruy
E às vezes uma mulher fazendo carinho
Hoje a lua não é mais dos poetas
Hoje a lua é dos astronautas.

(Este poema permaneceu inédito até 2008, quando foi revelado por sua filha Raquel).

Maurício Pestana comenta os desafios da inclusão racial no país

Em um contexto histórico de abandono e marginalização por parte do estado, somado ao ainda presente racismo institucional, o povo negro resiste, luta e reivindica garantias mínimas, que durante séculos foram cerceadas. Em entrevista exclusiva ao Portal Vermelho, o secretario de promoção da Igualdade Racial da cidade de São Paulo, Maurício Pestana, comenta os avanços e desafios a serem alcançados para sanar a dívida histórica que o país possui com os negros.

Por Laís Gouveia

Maurício Pestana 

Maurício diz que é importante ressaltar o histórico dos percalços enfrentados pela população negra, para entender o contexto atual de desigualdades sociais. “Em 515 anos de história do Brasil, quase três quartos foram construídas com a mão de obra escrava. Quando chegamos no fim do século 19, com a assinatura da Lei Áurea, a população negra foi marginalizada pelo governo e a mão de obra foi substituída pela europeia, sendo que, os europeus não foram obrigados a virem para o Brasil, ao contrário dos negros. Nessa troca da mão de obra, houve a exclusão da população negra na economia formal. Por consequência, o ex-escravo entrou na linha da pobreza e passou o século 20 marginalizado, sendo que, o Brasil, foi o país que mais cresceu no mundo durante tal período, saímos de uma condição rural e no fim do século já eramos apontados como a 7ª economia global. Porém, não avançamos na quebra da desigualdade, e ela tem cor. Como exemplo, no fim dos anos 90, os negros ocupavam apenas 2% das vagas em universidades públicas”, afirma.

Protagonismo brasileiro no combate ao racismo

A 3º Conferência Mundial Contra o Racismo, que ocorreu em Durban, na África Do Sul, teve uma importância global, ressalta Maurício. “Israel e EUA não mandaram nenhum representante ao fórum, mesmo com o status de referência que os estadunidenses possuem no debate racial. O principal protagonista acabou sendo o Brasil, que enviou mais de 200 representantes. “Ganhamos a relatoria da conferência e assinamos um protocolo para fazer ações afirmativas de inclusão racial. Como desdobramento do fórum na África do Sul, Fernando Henrique Cardoso, no fim do seu mandado como presidente, encomendou uma pesquisa ao Ipea para fazer um diagnóstico da educação no país, com recorte da inserção da população negra. A análise apontou que seria preciso, mesmo com a aplicação de políticas públicas de inclusão, de 30 a 40 anos para sanar as desigualdades educacionais no país. O estudo foi feito, mas, em seu governo, nenhuma ação de inclusão foi realizada pelo tucano”, diz Maurício.

O governo Lula e as políticas de inclusão

“A ações de políticas afirmativas só começaram a ocorrer, efetivamente, quando Lula ingressou à presidência”, afirma Maurício. “No campo educacional, o que foi feito em 15 anos de governo, nunca foi feito antes em toda a história do Brasil. Começaram a ser implementadas políticas efetivas, como exemplo, as cotas em universidades públicas, o ProUni e o resultado disso é o impacto de quase 20% da população negra hoje estar inserida no ensino superior. Além disso, a discussão ganhou maior expressividade na sociedade com a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Soma-se a isso o desenvolvimento econômico dos últimos anos, resultando em mais pessoas com poder de renda e com isso, houve uma maior ascensão social nas classes C e D”.

Empregabilidade como forma de inclusão

O secretário salienta que, para além das mudanças de inserção social promovidas nos últimos anos, é fundamental garantir a empregabilidade à população negra. “Quando ingressei na secretária de Promoção da Igualdade racial de São Paulo, percebi que precisávamos dar um passo adiante nas políticas de inclusão, e isso se faz través da movimentação da economia e a empregabilidade é um braço importante para o desenvolvimento e inclusão. Sabendo que a mudança não ocorreria apenas com funcionários públicos e que era necessário envolver também o setor privado na empregabilidade, então, chamei empresas que já tinham experiência de ações afirmativas para dialogar e o desdobramento disso, foi um fórum que surpreendeu pela representatividade, com a participação de cinquenta multinacionais e um público de 350 pessoas. Essa é uma política muito importante para executar, pois aproxima o contratante e o contratado. Criamos então um comitê permanente com essas empresas, para continuarmos com tal política de inclusão da população negra através da geração de emprego. Além disso, temos o programa de Cotas do Município de São Paulo, que já inseriu mais de 1000 funcionários negros no mercado de trabalho, ocupando cargos de estagiários a secretarios”.

Semana da consciência negra

Durante toda a semana, várias ações estão ocorrendo para celebrar o dia da consciência negra, na cidade de São Paulo. A abertura contou com participação do prefeito Fernando Haddad. “Temos que envolver todas as ramificações culturais da cidade, então descobrimos que em um dia seria impossível contemplar todos os grupos, então, resolvemos fazer uma semana inteira de atividades. A programação contém seminários sobre cotistas, mulheres negras, educação financeira, empreendedorismo e juventude negra. No final a cada dia de debate ocorre  uma atividade cultural”, conclui Maurício.

Confira a programação completa da semana da consciência negra  aqui

Do Portal Vermelho 

Dia de refletir sobre a importância da história e cultura negra

Neste 20 de novembro completam-se 320 anos da morte de Zumbi dos Palmares e durante toda a semana, o Portal Vermelho dedicou parte de suas publicações ao debate e conscientização sobre a questão negra. A data de hoje deve ser de reflexão sobre a importância da cultura e da história do negro no Brasil.

 

Neste 20 de novembro completam-se 320 anos da morte de Zumbi.Neste 20 de novembro completam-se 320 anos da morte de Zumbi.

O dia 20 de novembro marca a morte do último líder do maior quilombo do período colonial, Zumbi que viveu no Quilombo dos Palmares, localizado na parte superior do rio São Francisco, na Serra da Barriga, antiga capitania de Pernambuco (atualmente Alagoas).

Símbolo da resistência à escravidão, Zumbi adotou o nome que significa guerreiro com 15 anos quando fugiu para o quilombo.

Feriado em mais de mil cidades brasileiras, o Dia da Consciência Negra foi instituído em 2003 no calendário escolar nacional, mas é comemorado há mais de 30 anos pelo movimento negro.

A lista completa com mais de mil cidades brasileiras onde dia 20 de novembro é feriado oficial, com a lei que regulamenta a data foi dispobilizado a partir de um levantamento realizado pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) em 2014.

Acesse as reportagens, artigos, entrevistas sobre a questão negra publicadas ao longo da semana no Especial do Portal Vermelho.

Atividades

Na cidade de União dos Palmares, em Alagoas, as comemorações do Dia da Consciência Negra serão realizadas no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, com a posse dos membros do Conselho Curador da Fundação Cultural Palmares, a coroação do busto de Zumbi, a reverência à ancestralidade de matriz africana, o cortejo das Yabás e o lançamento da campanha Filhos do Brasil, em defesa e garantia da liberdade religiosa e contra a intolerância, com a participação de artistas, personalidades públicas e lideranças de várias denominações religiosas.

No Maranhão, para marcar a data, o governo encaminha à Assembleia Legislativa projeto de lei que destina 20% das vagas dos concursos públicos estaduais para negros. Ainda em São Luís, será realizado, às 17h30, ato público na Praça Nauro Machado, na Praia Grande. Em seguida, haverá edição especial do Programa Mais Cultura e Turismo, com apresentação de roda de capoeira, blocos afros e bumba-meu-boi.

Em Salvador, será realizada às 16h a 15ª Caminhada da Liberdade. A passeata deve reunir mais de 20 mil pessoas e sairá da Senzala do Barro Preto, sede do Ilê Aiyê.


Em Porto Alegre, a Marcha Zumbi dos Palmares chega à sua 9ª edição com uma nova caminhada para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra. A concentração na Capital acontece a partir das 17h, no Largo Glênio Peres. A saída está marcada para as 18h, quando a marcha segue pela Avenida Borges de Medeiros e pela Rua José do Patrocínio até chegar ao Largo Zumbi dos Palmares. Além da caminhada, serão realizados eventos.

Para lembrar o Dia da Consciência Negra, a TV Brasil exibe nesta sexta-feira (20) programação especial, a partir das 16 horas.

Novembro pela igualdade

Uma cerimônia no Museu da República, em Brasília, no último dia 16 marcou a abertura da Semana Nacional da Consciência Negra. O evento, organizado pelo Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, por meio da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, tem por objetivo promover a igualdade racial em todo o país e combater todas as formas de racismo e discriminação racial.

Para a ministra Nilma Lino Gomes, a campanha “Novembro pela Igualdade Racial”, lançada durante a abertura do evento, busca mostrar que o negro deve ser protagonista de sua história, e não deve se intimidar ou se diminuir devido aos ataques racistas. Com o slogan “Lugar do Negro”, a campanha mostra, segundo a gestora, que o lugar do negro é em todo e qualquer lugar que ele queira.

“É a primeira vez que o governo lança uma campanha como esta em novembro, articulando vários ministérios e mostrando a evolução das políticas públicas para a igualdade racial”, afirmou Nilma.

Do Portal Vermelho, com agências

Vice-presidente do Senado italiano compara ministra negra a um orangotango

Cecile Kyenge, cidadã italiana nascida no Congo, vem sendo alvo de racismo desde que foi nomeada ministra

O senador Roberto Calderoli, do partido Liga Norte, conhecido por se posicionar contra a imigração na Itália, comparou a primeira ministra negra do país Cecile Kyenge a um orangotango. Cecile, cidadã italiana nascida na República Democrática do Congo, vem sendo alvo de discursos racistas desde que foi nomeada ministra da Integração em abril.

“Eu amo animais, ursos e lobos, como todos sabem, mas quando eu vejo fotos de Kyenge, eu não consigo deixar de pensar em, e não estou dizendo que ela é, um orangotango”, disse Calderoli, vice-presidente do Senado, em discurso na cidade de Treviglio no sábado (13).

Continuar lendo