Por uma outra globalização

Instante – Por uma outra globalização


Encontre-se com ele


A sensação que permanece após um Encontro com Milton Santos é que não poderíamos entender o quanto somos egoístas e pensamos de maneira insignificante antes de considerar a sua “outra globalização”.
O “capitalismo consumista”, condenado pelo cientista, é responsável pela crescente disparidade entre os países ricos e pobres do mundo. Já se pode dividir o planeta entre mundo do Norte e mundo do Sul, ou “o mundo dos que não comem e o mundo dos que não dormem, com medo dos que não comem”. Não esperemos (e o filme deixa isso muito claro), porém, subserviência destes desfavorecidos pela “globalização” do mundo atual. Os movimentos populares ganham força por todo o mundo, alguns já organizados como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, no Brasil, ou incitados momentaneamente por alguma injustiça absurda, como na Bolívia quando o governo pretendia privatizar toda a água potável do país.
A outra globalização a que se refere Milton Santos é justamente uma que abranja a todos, invariavelmente, e que cesse a exploração da mão-de-obra dos países mais pobres por parte das grandes potências mundiais. Segundo ele, o caminho para isto está nos movimentos populares, na educação e no fortalecimento e valorização dos patrimônios nacionais. As privatizações, por exemplo, são veementemente criticadas pelo cientista por priorizarem interesses mercadológicos em detrimento de interesses humanos e sociais.
A tendência é que manifestações deste tipo aumentem. A privatização da brasileira Companhia Vale do Rio Doce (apesar de efetivada em governo anterior), por exemplo, acaba (de 1° a 9 deste mês de setembro) de ser questionada em plebiscito, pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), que convidou a população brasileira a se posicionar sobre o assunto.
A questão do documentário que talvez nos interesse mais, no entanto, é a que trata dos perigos da atual “globalização” para a produção jornalística. Em levantamento recente dos alunos de Jornalismo Econômico do UniCEUB, observou-se que as falhas de cobertura não eram especificamente de economia, mas sim de jornalismo básico. Nos mais diversos veículos pesquisados, em emissoras e dias diferentes, os problemas eram recorrentes: as pautas eram as mesmas, “requentadas” e superficiais, as fontes eram quase sempre oficiais (quando não “fantasmas”), os comentaristas falavam ao mercado (de onde muitas vezes eram provenientes, levantando dúvidas sobre a isenção de suas falas) e o cidadão comum raramente era levado em conta.
Um grande bloco de mesmice, não por acaso. As grandes corporações da mídia são, em todo o mundo, controladas por poucos grupos/famílias e muitas vezes financiadas pelas grandes empresas multinacionais. De acordo com levantamento do pesquisador Venício Lima, em 2001, as televisões e rádios brasileiras eram controladas por três grandes grupos nacionais (Marinho, Abravanel e Saad) e cinco regionais (Sirotsky, Câmara, Daou, Zahran e Jereissati). Cabe ressaltar que a família Jereissati, por exemplo, tem também antiga tradição política (!) e empresarial no país. A política, aliás, exerce grande parcela de controle sobre os meios de comunicação. Ainda segundo a mesma pesquisa, 31,12% das TV´s comerciais e 40,13% da rádios eram gerenciadas por políticos ou pessoas próximas a eles.
Apesar do poço sem fundo em que parecemos estar caindo, a culpa não é exclusivamente dos controladores da mídia. Tanto leitores comuns, como estudantes e professores de comunicação parecem não entender um princípio básico do jornal: ele é um relato, nada além disso. Devemos ter o cuidado (redobrado ou triplicado, atualmente) de ler com olhar crítico o que nos é apresentado.
É lógico raciocinar que, se a cobertura é tão falha e direcionada, os assuntos que realmente nos interessam estarão ausentes. Temos que, como bem escreveu o jornalista Eduardo Guimarães, parar de terceirizar pensamentos e desenvolver os nossos próprios.
Texto de Pedro de Oliveira

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