Uma interpretação materialista da história

Uma interpretação materialista da história
D. Riazanov

Publicamos abaixo um trecho do livro de D. Riazanov, erudito marxista russo e fundador do Instituto Marx e Engels de Moscou após a Revolução Russa de 1917 intitulado Notas ao Manifesto Comunista.Neste texto são feitas várias considerações sobre idéias centrais do Manifesto redigido por Marx e Engels, que se tornaram uma leitura obrigatória para aqueles que se dedicam à luta revolucionária

Os economistas burgueses vêem no capital um regime eterno de produção social e, como eterno, indispensável para o rendimento do trabalho. Esquecem que os meios de produção somente se transformam em capital e o trabalhador em assalariado, em proletário, sob certas e determinadas condições históricas.

“O capital pressupõe o trabalho assalariado e este o capital. Dependem um do outro e ambos criam-se mutuamente. Então, o operário que trabalha em uma fábrica algodoeira somente produz artigos de algodão? Não, produz também capital. Produz, portanto, valores que se apoderam de seu trabalho e o utilizam para a criação de novos valores, e assim sucessivamente. O capital somente se reproduz ao ser modificado pela força de trabalho, ao criar o trabalho assalariado. Por sua vez, a força de trabalho do operário não pode transformar-se em capital se não multiplicar este mesmo capital, reforçando a própria cadeia a que está acorrentado. E, ao aumentar o capital aumenta, também, o número de proletários, o contingente de indivíduos que forma a classe operária.” (Marx, Trabalho Assalariado e Capital).

Colocados fora de certas condições sociais, fora de tal ou qual período histórico do desenvolvimento da sociedade, os meios de produção não podem constituir jamais capital. O capital é a força, não de um indivíduo, e sim de toda uma sociedade.

Um regime peculiar da sociedade burguesa

“Um negro é um negro… Porém sob determinadas condições se converte em escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma máquina de fiar algodão. Terão que ocorrer condições especiais para que se converta em capital. Desmembrada destas condições, a máquina não tem caráter de capital, do mesmo modo que o ouro não é por si dinheiro, nem o açúcar o preço do açúcar. O capital é um regime social de produção, o regime de produção peculiar da sociedade burguesa. Os meios de vida, os instrumentos de trabalho, as matérias primas, todos estes elementos integrantes do capital, por acaso não são produzidos e acumulados sob determinadas condições sociais, sob um determinado regime social? E não são utilizados, sob este regime determinado, como meios para continuar produzindo? E não é precisamente este caráter social o que transforma os produtos aptos para uma nova produção de capital?” (Marx, Trabalho assalariado e capital).

Mas advirta-se que este poder social é um poder privado, patrimônio privado de uma pessoa individual, o capitalista, que tem o direito total e irrefreável de fazer dele o uso que lhe dite sua vontade. Quanto mais rapidamente desenvolvam-se os meios de produção capitalista, com mais pujança desenvolvem-se também os distintos ramos da industria e mais aguda se torna a contradição entre a apropriação capitalista e a produção social. Não é necessário mais que cancelar nos meios sociais de produção, o caráter capitalista para o termos convertido em propriedade social. “O proletariado se apropria do Poder público, e imediatamente transforma os meios de produção em propriedade social” (Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico). Deste modo arranca as forças de produção às unhas capitalistas e abre o caminho para o desenvolvimento pleno de sua aplicação. Isto torna possível regular a produção social de acordo com um plano pré-concebido. O desenvolvimento da produção confere assim à existência de classes diferentes um caráter anacrônico.

A luta de classes e o processo histórico

O Manifesto é uma aplicação viva da nova filosofia da história: traça o quadro do processo histórico que leva ao nascimento e desenvolvimento da luta de classes entre o proletariado e a burguesia. Na primeira parte coloca o elemento dramático, a luta de classes. O Manifesto demonstra como a luta de classes está determinada sempre pelos fatores sociais e as condições econômicas; como a luta do proletariado por conquistar sua emancipação é um fenômeno obrigatório no transcurso da história do mesmo modo que foi em outro tempo a luta da burguesia por sua liberdade; como o desenvolvimento da grande indústria gerou os elementos necessários para a instauração de um novo sistema econômico. Marx e Engels não pretenderam jamais ter descoberto a luta de classes na história. Pelo contrário, tiveram muito cuidado em demonstrar que já havia fatos do período da Restauração inglesa (isto é, de muito antes de seu tempo) referentes à história da burguesia, nos quais se pintava o desenvolvimento histórico da luta de classes. Ademais, os economistas burgueses haviam posto a descoberto a estrutura econômica destas classes. Marx limitou-se a generalizar o conhecimento destes fatos, apagando do campo da história, de uma vez para sempre, o romantismo dos heróis, líderes, etcetera, os quais eram reconhecidos tradicionalmente como os seus “autores”. Marx demonstrou que a existência de classes está estreitamente relacionada com o grau de desenvolvimento da produção em uma época histórica determinada e que a luta de classes, em sua fase mais moderna, tem que conduzir necessariamente à tomada do poder político pelo proletariado.

Uma interpretação materialista da história

A luta de classes como força motriz da história, a origem das classes sociais, a transformação de grupos homogêneos de indivíduos unidos por interesses comuns em uma classe coerente com vida própria, o desenvolvimento da consciência de classe entre os operários, a criação de uma mentalidade de classe, a formação de uma perspectiva de classe que abarque o mundo inteiro (atitude mental cimentada nas condições materiais vigentes no interior da classe), todos estes pontos de vista foram transladados pouco a pouco por Marx ao laboratório da sua interpretação materialista da história. Um dos problemas mais urgentes era desarraigar as idéias correntes e generalizadas em matéria de religião. Feuerbach, filósofo alemão (1804-1872), havia proclamado já que, no mundo religioso, o conhecimento estava determinado pela existência, o pensamento pelo ser, afirmando que não era a religião que criava o homem, e sim que este criava a religião. Marx foi mais além. Sustentou que não era o homem individual que se enfrentava com a natureza, e sim a humanidade em seu conjunto; que a consciência não estava determinada pela existência individual e sim pelo conjunto de existências humanas. A religião – disse Marx – deve ser explicada, não pela “autoconsciência” e outras sutilezas do mesmo gênero, e sim pelo regime geral de produção e intercâmbio, que é tão independente do conhecimento puro como a invenção do tear mecânico e a introdução das ferrovias da filosofia de Hegel.

Marx estudou também outras formas ideológicas: “As relações sociais estão intimamente vinculadas com as forças de produção. Ao dispor de novas forças produtivas, as pessoas mudam o regime de produção, e paralelamente com a mudança sobrevinda no regime de produção, no modo de ganhar a vida, mudam todas as relações sociais. O moinho movido a mão nos lega uma sociedade de senhores feudais; o tear mecânico, uma sociedade de capitalistas industriais. E essas mesmas pessoas que moldam as relações sociais ao regime material de produção, modelam igualmente as idéias, os princípios, as categorias e as condições sociais em geral. Por isso essas idéias, essas categorias, somente duram enquanto existem as condições, as relações das quais são expressão. São produtos históricos, fugazes, transitórios” (Marx, Miséria da filosofia)

As idéias criam a história?

Aos que sustentam que as idéias, os princípios etc., criam a história, contesta Marx com a seguinte definição dos problemas postulados ao historiador:

“Se nos perguntarmos (…) por que um princípio dado aparece no século XI ou no século XIII e não em outro qualquer, necessariamente teremos que estudar a respeito da condição das pessoas que viveram naquele século, indagar as necessidades especiais que regiam aquele século, as forças produtivas que imperam naquela época, os métodos de produção e as matérias primas de uso geral, enfim, de quais eram as relações sociais resultantes das condições de vida a que aludimos. E o que é estudar todas as questões, senão escrever a história real e quotidiana das pessoas que viveram em cada século, descrevendo-as como os autores e atores a par de seu próprio drama dentro dos limites comuns de seu tempo?” (Marx, Miséria da filosofia).

E, que dizer da idéia revolucionária endereçada contra a sociedade existente? Não existe e se estende cada vez mais a convicção de que a exploração do homem pelo homem é imoral e de que se deve pôr fim a este regime, destruí-lo? E não demonstra a difusão destas convicções que a idéia é capaz de criar uma mentalidade revolucionária? Engels escreve: “Quando a consciência moral das massas assinala como injusto tal ou qual fenômeno econômico, como ocorreu primeiro com a escravidão e logo com a servidão, ela indica que esse fenômeno já sobreviveu a seu tempo, que já surgiram novas condições econômicas junto as quais as velhas se tornaram insuportáveis e têm que ser varridas.”

O caráter de classe da sociedade determina o caráter também de classe das idéias que nela prevalecem. “Nossos sentimentos, nossas ilusões, nossas idéias, nossos pensamentos, não são mais que a fachada que se levanta sobre diferentes regimes de propriedade, sobre distintas condições sociais. Cada classe constrói esta fachada para si mesma, sobre a base de suas condições materiais específicas e de suas relações sociais peculiares. No entanto, ao indivíduo que adquire suas idéias e seus sentimentos por meio da educação e da tradição fica caracterizado que estas idéias e sentimentos são o móvel fundamental, o verdadeiro ponto de partida de suas atividades.”

Sempre que várias classes estejam ligadas como elos em um destino histórico comum e confinados dentro do mesmo sistema social, suas perspectivas apresentam certas características comuns. Porém estes traços têm uma importância puramente secundária comparados com as características específicas que acusam a psicologia de cada classe de por si. À luta de classes no mundo político e econômico corresponde a luta no mundo das idéias. A psicologia da classe dirigente imprime seu selo na época histórica em que esta classe impera e desenvolve seus atributos pessoais. É uma psicologia de classe dirigente. Ou para dizer com a paráfrase que faz o Manifesto da sentença de Goethe: “As idéias dominantes são, em todas as épocas, as idéias da classe dominante “.

Fonte: PCO

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David Riazanov

David Riazanov

David Riazanov, 1923

David Borisovich Goldendach (10 de março de 1870 – 21 de janeiro de 1938), mais conhecido como David Riazanov foi um intelectual, ativista sindical e revolucionário ucraniano, diretor do Instituto Marx-Engels de Moscou e responsável pela primeira tentativa de editar as obras completas de Karl Marx e Friedrich Engels, a Marx-Engels-Gesamtausgabe.