Comunismo ou a ressurreição de Lázaro

Texto de Marcio Sales Saraiva

Depois da queda do Muro de Berlim em novembro de 1989 (e lá se vão 26 anos!) e da ex-União Soviética (URSS), fracassou em diversos outros países aliados a experiência conhecida como “socialismo real”, tentativa de criar uma transição para o comunismo. Depois disso, a palavra comunismo ficou associada a ideias negativas: assassinatos, totalitarismo, improdutividade econômica, estagnação, autoritarismo, censura, partido único etc. Diversos partidos ao redor do mundo abandonaram a palavra “comunista” em suas siglas. Aqui no Brasil, o lendário “Partidão”, o PCB, se transformou em “Partido Popular Socialista-PPS”, sem martelo e foice. Um pequeno e valente grupo ainda mantém a sigla PCB (Partido Comunista Brasileiro), mas sem grande influência social.

A hegemonia do novo liberalismo e a liquidação do Estado de bem-estar social trouxeram tempos difíceis para as classes trabalhadoras e para quem ainda acredita que o comunismo permanece como horizonte utópico e motivador para diversos movimentos de ruptura com a ordem do capital e sua cultura egocêntrica, fragmentária e consumista.

Dizer-se “comunista”, depois da queda do muro, era assumir algo tido por muitos como “maligno”. A campanha ideológica de difamação e desconstrução da Ideia de comunismo quase liquidou com todos os atores coletivos que reivindicam a possibilidade de outro mundo que não seja capitalista.

Em 2009, 20 anos depois da queda, Alain Badiou, filósofo francês de origem marroquina, reuniu algumas conferências e encontros para lançar um livro que marcaria uma nova geração que se via órfã de uma literatura assumidamente comunista depois do refluxo e do fracasso pós-1917 (Revolução Russa).

O livro L´hypothèse communiste foi traduzido para o português por Mariana Echalar e lançado em 2012 pela paulista Boitempo Editorial.

No prefácio, Badiou nos convida a refletirmos com honestidade sobre o refluxo do comunismo que se traduziu, entre outras coisas, por uma “negação resignada” onde os velhos revolucionários retomaram os costumes eleitorais, acomodando-se aos cargos e pequenos poderes dentro do sistema. Novamente, a esquerda abraçou um respeito sacrossanto pela ordem do capital (e sua “democracia parlamentar”) que nem mesmo os mais liberais mantêm.

A mediocridade tomou conta da outrora esquerda anticapitalista através da ideia de que “querer mais é querer pior”. Acomodar-se e conquistar migalhas, esta era a nova “utopia”. Surgia aí, depois da rendição reformista da socialdemocracia no interior da ordem do capital, uma esquerda que se transformaria em braço do Estado oligárquico-burguês para “conter” processos radicais de ruptura e emancipação do povo. Quando a sociedade estava “quente”, bastava chamar os “comunistas” e seus sindicatos para “darem um jeito” nos rebelados.

Resignados diante do triunfo do mercado, os antigos revolucionários passaram a novo lema: Aceitemos, pois, tudo tal como é. Se possível, melhoremos aqui e ali, mas sem “totalitarismos” que possam macular o nosso “mundo livre” onde prevalece o respeito aos “direitos humanos”. As oligarquias da ordem do capital agradeceram e retribuíram com muitos cargos e posições de status a esta nova vassalagem.

Eis o fracasso dos comunistas. Fracasso que, para Badiou, é de uma imensa riqueza para rearticulação histórica da Ideia. Fracasso que o levará a escrever sobre “o significado positivo das derrotas” e das desilusões, tanto as de direita (eleitoralismo resignado) como as de esquerda (terrorismo e massacres).

Em Londres, no mês de março de 2009, Badiou e S. Zizek reuniram um grupo de intelectuais dispostos a recuperar o valor positivo da palavra comunismo, destroçado pelos aparelhos ideológicos da burguesia triunfante. Judith Balso, Terry Eagleton, Michael Hardt, Toni Negri, Jacques Rancière, Gianni Vattimo e outros mostraram que a Ideia de comunismo floresce, aqui e acolá, não necessariamente usando este nome, nem ligada a um partido com o nome “comunista”.

As experiências societárias resgatadas pelo livro – o maio de 1968, a revolução cultural de Mao e a Comuna de Paris – são capítulos de uma história inacabada. O capitalismo, para Alain Badiou e seus companheiros de reflexão, não é o fim da história. Há outro futuro possível. A hipótese comunista está de pé.

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Alain Badiou lança o livro “hipótese comunista”

Alain Badiou lança o livro “hipótese comunista”
Alain Badiou
A “hipótese comunista”, conceito formulado pelo filósofo, dramaturgo e militante francês Alain Badiou, inspira uma obra homônima sobre a revitalização do comunismo e um novo programa para a esquerda, lançada agora pela Boitempo. Desde 2008, quando foi exposto pela primeira vez em um artigo da New Left Review, o termo vem sendo adotado e discutido por uma ampla gama de pensadores, como Slavoj Žižek, Jacques Rancière, Michael Hardt, Antonio Negri e Terry Eagleton.
Considerado um dos principais filósofos de nosso século, Badiou parte da reflexão sobre a noção de fracasso do comunismo –­ enunciado negativo amplamente disseminado pela “nova filosofia” ocidental a partir da década de 1970 – para defender a sua retomada. Badiou vê o fracasso como uma trajetória, e não como o fim de uma experiência histórica.
Sua convicção se esclarece com uma comparação científica: o “teorema de Fermat” foi por três séculos um problema matemático não resolvido, que assumiu a forma de uma hipótese. Houve inúmeras tentativas de justificação, de longo alcance, que não conseguiram resolver o problema em si. “Mas foi fundamental que a hipótese não tenha sido abandonada durante os três séculos em que foi impossível demonstrá-la. A fecundidade desses fracassos, de sua análise, de suas consequências, estimulou a vida matemática. Nesse sentido, o fracasso, desde que não provoque o abandono da hipótese, é apenas a história da justificação dessa hipótese”, afirma no prefácio.
Neste volume, além de um artigo sobre Maio de 1968 e outro sobre as lições da Comuna de Paris, o leitor encontrará o pensamento de Badiou sobre a Revolução Cultural Chinesa e sobre seu mestre na política, Mao Tsé-Tung. Analisando detalhadamente esses três momentos, o autor sustenta que os aparentes fracassos de acontecimentos profundamente ligados à hipótese comunista foram e ainda são etapas de sua história, defende o retorno da palavra “comunismo” e, com ela, da hipótese geral que envolve seus processos políticos efetivos. A posição da palavra, no entanto, não pode mais ser a de adjetivo, como em “partido comunista” ou “regimes comunistas”. Segundo o filósofo, a forma partido, assim como a de Estado socialista, é inadequada para garantir a sustentação real da Ideia. Novas formas políticas, que se referem a uma política sem partido, foram e ainda são experimentadas.
Em um paradoxo histórico, o autor aponta que estamos mais próximos dos problemas examinados na primeira metade do século XIX do que dos problemas herdados do século XX. Como no início do século XIX, não se trata da vitória da Ideia, como foi o caso, de forma imprudente, durante parte do século XX. O que importa é sua existência e os termos de sua formulação. Ou seja, em primeiro lugar, é preciso dar uma sólida existência subjetiva à hipótese comunista. “Combinando as construções do pensamento, que são sempre globais e universais, e as experimentações de fragmentos de verdades, que são locais e singulares, mas universalmente transmissíveis, podemos garantir a nova existência da hipótese comunista, ou melhor, da Ideia comunista, nas consciências individuais. Podemos inaugurar o terceiro período de existência dessa Ideia. Nós podemos, logo devemos.”, afirmou durante a conferência “A ideia do comunismo”, realizada em Londres, no ano de 2009, cuja transcrição se encontra no livro.
Além de seus dois iniciadores (Alain Badiou e Slavoj Žižek), participaram dessa conferência grandes nomes da filosofia contemporânea, entre o quais Judith Balso, Bruno Bosteels, Terry Eagleton, Peter Hallward, Michael Hardt, Toni Negri, Jacques Rancière, Alessandro Russo, Alberto Toscano e Gianni Vattimo. A única condição para a participação era que, qualquer que fosse a abordagem, eles deveriam sustentar que a palavra “comunismo” pode e deve recuperar um valor positivo. O encontro lotou um gigantesco auditório de mil lugares em torno de uma palavra praticamente condenada à morte pela opinião dominante há quase trinta anos. Uma surpresa para todos, e um sintoma para Badiou.
Trecho do livro
“A história de uma vida é por si mesma, sem decisão nem escolha, uma parte da história do Estado, cujas mediações clássicas são a família, o trabalho, a pátria, a propriedade, a religião, os costumes… A projeção heroica, mas individual, de uma exceção a tudo isso – como é um processo de verdade – também quer estar em partilha com os outros, quer se mostrar não só como exceção, mas também como possibilidade agora comum a todos. E esta é uma das funções da Ideia: projetar a exceção no comum das existências, preencher o que só faz existir com uma dose de inaudito. Convencer meu entorno individual, esposo ou esposa, vizinhos, amigos e colegas, de que existe também a fabulosa exceção das verdades em devir, de que não estamos fadados à formatação de nossa existência pelas exigências do Estado. É claro que, em última instância, apenas a experiência nua, ou militante, do processo de verdade, forçará a entrada desse ou daquele no corpo de verdade. Mas para conduzi-lo ao ponto em que essa experiência ocorre, para torná-lo espectador e, portanto, já meio ator daquilo que importa para uma verdade, a mediação da Ideia, a partilha da Ideia são quase sempre necessárias.”
Sobre o autor
Alain Badiou nasceu em 1937 na cidade marroquina de Rabat. Autor de vasta produção intelectual, é tido como um dos principais filósofos franceses da atualidade. Lecionou filosofia entre 1969 e 1999 na Universidade de Paris-VIII e, atualmente, é professor emérito da École Normale Supérieure de Paris, onde criou o Centre International d’Étude de la Philosophie Française Contemporaine. Sua trajetória está marcada pelo ativismo político. Filho de um professor de matemática – prefeito de Toulouse entre 1944 e 1958 – que se destacou na Resistência Francesa, Badiou participou dos movimentos de 1968, foi membro-fundador do Parti Socialiste Unifié (PSU) e um dos dirigentes da L’Union des Communistes de France Marxiste-Léniniste (UCF-ML), grupo maoista francês. Desde o fim da década de 1980 integra a Organisation Politique. Além de obras filosóficas, escreveu ensaios políticos, romances e atua como dramaturgo, tendo trabalhado com diretores como Antoine Vitez e Christian Schiaretti. De sua autoria a Boitempo também publicou São Paulo, a fundação do universalismo (2009).
Ficha técnica
Título: A hipótese comunista
Subtítulo: L’hypothèse communiste
Autor: Alain Badiou
Tradução: Mariana Echalar
Orelha: Norman Madarasz
Páginas: 152
Coleção: Estado de sítio
Editora: Boitempo