Suposto filho russo de Fidel quer própria “revolução” com nova rede social

O escritor russo Aleksandr Serioguin, suposto filho do histórico líder de Cuba, Fidel Castro, prepara em Moscou sua própria revolução: ressuscitar, digitalizar e reunir, em uma espécie de rede social, a consciência de todos os seres humanos que já habitaram a Terra na história.

“Sempre me senti diferente. Não só pelo meu aspecto físico, que não tem nada a ver com os traços eslavos dos meus pais, mas também por meu pensamento. Tenho um aguçado senso de justiça, como Fidel sempre teve”, afirmou ele em entrevista à Agência Efe.

Serioguin disse que seu empenho em “salvar o mundo e a humanidade” vem de seu “verdadeiro” pai, para ele um modelo a ser seguido, e de suas raízes pouco convencionais de ideias.

Usando um elegante casaco preto no qual se destaca um broche com a bandeira de Cuba, Serioguin vive em uma casa de campo na elitista Barvija, uma região nos arredores de Moscou onde também fica a residência do presidente da Rússia, Vladimir Putin.

“Esse terreno foi dado à minha mãe quando voltamos de Cuba. Ela era uma agente da KGB que tinha trabalhado em Zavidovo (uma residência de campo do Kremlin). Lá ela conheceu Fidel quando ele viajou pela primeira vez à União Soviética. Nove meses depois, eu nasci”, conta Serioguin.

O escritor se declara religioso, mas também revolucionário e comunista, como mostra sua amizade com muitos dos líderes atuais do Partido Comunista da Rússia e a presença durante as comemorações do centenário da Revolução Bolchevique de 1917, na última terça-feira.

“Me uno à experiência dos comunistas para iniciar grandes projetos universais. Lenin tinha uma visão do mundo. E eu me vejo praticamente como um novo Lenin, porque tenho um projeto global para toda a humanidade”, afirmou o filho bastardo de Fidel Castro.

Com uma fórmula matemática em mãos, criada, segundo ele, por um “matemático russo genial”, Serioguin diz que sabe que 810 milhões de pessoas já viveram no planeta desde o início da história. Seu objetivo é voltar a reunir essas almas em um tempo digital.

“Prometi ao meu pai que nos encontraríamos nesse novo templo, nessa grande rede social. É um processo inevitável. Deus deu ao homem a internet para que todos possamos nos reunir”, explicou.

O escritor diz que mantem os perfis de seus amigos mortos ativos nas redes sociais. Com uma expressão séria, ele completa. “Falo com eles, envio minhas fotos e dou parabéns por seus aniversários porque tenho certeza de que eles irão voltar”, revelou.

Na mesa de casa, Serioguin coloca uma coleção de fotos de sua mãe. Quem mais aparece nas imagens é o atual líder de Cuba, Raúl Castro, que assumiu o poder após o afastamento de Fidel.

Com as fotos, Serioguin revelou à Efe a história de amor entre sua mãe, a agente da KGB que fingia ser ajudante de cozinha na casa do líder soviético Leonid Brezhnerv, e o passional revolucionário.

“Poucas mulheres podiam resistir a ele na época”, disse.

“Eles se conheceram em 1963, e nove meses depois eu nasci. O homem que me criou como pai sempre suspeitou que eu não era seu filho. Mas minha mãe era espiã e guardou o segredo. Só há poucos anos me confessou que teve uma relação amorosa com Fidel”, completou.

Serioguin viu Fidel em três oportunidades. A primeira na União Soviética, em uma visita do líder cubano a Voronej, a 500 quilômetros de Moscou. Os outros dois encontros foram em Cuba, para aonde seus pais foram enviados para trabalhar.

“Quando chegamos a Cuba, Fidel nos deu uma casa enorme em frente ao mar. Antes da revolução, essa era a casa de uma estrela de Hollywood. Um dia, um funcionário do governo cubano se aproximou de mim e perguntou, em perfeito russo, se eu sabia quem era meu pai. Respondi que sim, que meu pai era um especialista soviético, e ele me respondeu que Fidel era meu pai”, recordou o escritor.

Desde então, especialmente depois das revelações de sua mãe, Serioguin diz estar “absolutamente certo” que é filho de Fidel. Seu desejo é confirmar a suspeita com um exame de DNA, mas a família do líder cubano não quer saber de sua história.

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Venezuela e a eventual moratória em quatro perguntas

A Venezuela está à beira de uma moratória de sua dívida externa, estimada em 150 bilhões de dólares, com baixas reservas financeiras e uma assustadora crise econômica, que devem dificultar o pagamento dos vencimentos milionários deste fim de semana.

Segue abaixo o que é e quais as consequências de uma moratória.

– Quando ocorre a moratória, ou cessar de pagamentos?

Um país é considerado em interrupção de pagamentos, ou moratória, quando não cumpre total ou parcialmente com seus credores – que podem ser locais, estrangeiros e até organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

No caso da Venezuela, o que está em jogo são créditos de investidores privados.

Caracas deve pagar nesta sexta-feira (9) cerca de 81 bilhões de dólares de um bônus da sua petroleira estatal PDVSA. Até o fim do ano, tem outros vencimentos por um total de 1,47 bilhão de dólares. E em 2018, terá que pagar cerca de 8 bilhões.

Atualmente, as reservas da Venezuela são de 9,7 bilhões de dólares.

As moratórias não são algo raro. Segundo a agência de classificação S&P Global Ratings, desde 1999, houve 26 no mundo – e alguns países enfrentaram essa situação mais de uma vez.

– Quem declara ou constata uma moratória?

Há diversas formas de declarar ou constatar uma moratória.

O governo pode anunciar que não honrará seus pagamentos e automaticamente cai em cessação de pagamentos.

A moratória também pode ser declarada por uma agência classificadora, como Moody’s, Fitch, ou S&P, que comunica publicamente que tal país não pagou e, por isso, o considera em default.

Uma terceira possibilidade é que um credor privado anuncie que a Venezuela não lhe pagou.

E outra opção é que seja anunciado por um organismo como o ISDA, entidade baseada nos Estados Unidos que atua como um vigia das dívidas soberanas.

– Quais são as consequências?

Para um país em moratória, a primeira consequência é se tornar um pária dos mercados financeiros internacionais. Não consegue créditos, ou apenas sob taxas astronômicas.

No caso de Caracas, Washington ainda proibiu em agosto a negociação de novos bônus da dívida da Venezuela e da PDVSA.

Os credores podem, eventualmente, embargar ativos no exterior. Para a Venezuela, o mais importante é a Citgo, sediada nos Estados Unidos, que refina e comercializa gasolina no país.

Entre os principais credores da Venezuela estão China e Rússia, mas também investidores, a maioria dos Estados Unidos, seduzidos pelos altos rendimentos prometidos por Caracas, diante da má fama de sua dívida.

No plano judicial, um país em moratória fica exposto a eventuais represálias dos países onde vivem seus credores.

Além disso, o país passa a ser identificado como “mau pagador”, o que complica e encarece a obtenção de novos fundos.

O FMI poderia promover um resgate, mas essa possibilidade não está sendo considerada por Caracas atualmente. A Venezuela ainda integra o FMI, mas cortou suas relações com o organismo há 10 anos.

– Restruturar ou refinanciar?

Quando um país cai em moratória, pode refinanciar ou restruturar sua dívida para modificar as condições do crédito que não consegue enfrentar.

Normalmente, o refinanciamento implica em um acordo entre as partes para modificar prazos, estabelecer períodos de carência, etc. Já em uma restruturação, o devedor impõe obrigatoriamente novas condições ao credor.

A Venezuela marcou para segunda-feira, em Caracas, uma reunião com seus credores estrangeiros para iniciar as negociações. As sanções de Washington impedem investidores americanos de participarem deste encontro.

Caracas já acertou um acordo com a Rússia por 3 bilhões de dólares, mas isso é uma pequena parte do total da dívida externa, estimada em mais de 150 bilhões de dólares.

Um mundo livre de armas nucleares

Todos os anos, no início de Agosto, milhões de pessoas evocam em todo o mundo os bombardeamentos nucleares de 1945 sobre Hiroxima e Nagasáqui. Fazem-no determinados a que a recordação desse bárbaro crime cometido pelos EUA (que mais do que a derradeira barbaridade da Segunda Guerra Mundial foi a primeira iniciativa da Guerra Fria, contra a União Soviética) contribua de alguma forma para impedir a sua repetição.

Dizemos «repetição» com plena consciência de que um ataque nuclear cometido hoje não se limitaria a replicar o imenso horror vivido nas duas cidades japonesas (nas quais perderam a vida centenas de milhares de pessoas, sofrendo muitas outras até aos nossos dias os efeitos da radiação), antes o multiplicaria por muito, dada a potência das actuais bombas. Já a dimensão e proliferação dos arsenais existentes faria da resposta que se seguiria a esse primeiro ataque atómico um verdadeiro holocausto nuclear.

Actualmente, nove países detêm armas nu-  cleares, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais Israel, Índia, Paquistão e República Popular Democrática da Coreia (das mais de 16 mil ogivas existentes, cerca de 15 mil estão nas mãos de norte-americanos e russos); outros cinco – Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia – acolhem armas nucleares dos EUA no seu território e dezenas de outros pertencem a alianças militares com capacidade e «vocação» nuclear, como é o caso da NATO. Portugal é um deles. Os EUA há muito que gastam mais no seu arsenal do que os restantes oito países juntos, ao mesmo tempo que assumem, sozinhos, mais de um terço das despesas militares mundiais: os três países que se seguem – China, Arábia Saudita e Rússia (por esta ordem) – não chegam, juntos, a metade do valor gasto pelos Estados Unidos.

Recentemente, a administração norte-americana decidiu investir mais de um milhão de milhões de dólares no chamado «programa de revitalização atómica», que visa o desenvolvimento de armas nucleares mais sofisticadas e «inteligentes», menores e mais difíceis de detectar. Preocupante é também a instalação dos sistemas de «escudo anti-míssil» na Europa Oriental e Extremo Oriente, com os quais EUA e NATO pretendem garantir o monopólio da utilização de armamento nuclear. Se a tudo isto somarmos uma análise objectiva à situação internacional actual, marcada pelo aumento da agressividade do imperialismo face à Rússia e à China ficamos com uma ideia aproximada dos riscos existentes para a paz.

Significado profundo

Mas a guerra não é inevitável e os povos têm sempre a última palavra! No pós-Segunda Guerra Mundial, o poderoso movimento da paz então surgido, impulsionado pelo papel determinante da União Soviética e dos comunistas na vitória sobre o nazi-fascismo, conseguiu travar os mais agressivos ímpetos do imperialismo norte-americano, forçando-o a aceitar compromissos visando o desanuviamento e o desarmamento: são exemplos maiores o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, de 1968, e a Acta Final da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, de 1975.

O desaparecimento da URSS e de outros países do sistema socialista, provocou um súbito e acentuado desequilíbrio a favor do imperialismo, que este aproveitou para estender o seu domínio a praticamente todo o globo. A proliferação de guerras, a instalação de bases e instalações militares em todos os continentes, a chantagem e pressão sobre países e povos e o desenvolvimento e proliferação e mais e mais sofisticadas armas de destruição massiva são as consequências mais visíveis.

Mas a aspiração dos povos à paz mantém-se. E as vitórias acontecem. No passado dia 7 de Julho, a Conferência das Nações Unidas para a negociação de um Tratado de Proibição das Armas Nucleares, na qual não participou nenhuma das potências nucleares  e apenas um dos membros da NATO, aprovou o primeiro tratado multilateral sobre esta questão desde 1968. Independentemente dos mais que certos obstáculos que encontrará no caminho da sua implementação, este tratado dá expressão formal ao conceito de mundo livre de armas nucleares, isolando ainda mais os que, como os EUA, fazem do poderio militar um instrumento de domínio e submissão de países e povos.

A proibição das armas nucleares e o desarmamento continuam a ser causas prementes e mobilizadoras.

O que é mesmo necessário é pôr trancas na política de direita

Depois do assalto ao paiol de armas na Direcção Nacional da PSP, dos incêndios e suas dramáticas consequências, eis que surge o assalto, acompanhado de enorme e justificado sobressalto, a um paiol de armas em Tancos. Como de costume, desenvolveu-se uma panóplia de análises, exclamações, determinações e sentenças. Uma espécie de concurso teve lugar para captação de holofotes mediáticos, incluindo de alguns com responsabilidades no estado a que as coisas chegaram.

O que aconteceu em Tancos, e as subsequentes exonerações e demissões, é o resultado de um processo de descaracterização e inversão de prioridades das Forças Armadas para o qual o PCP, desde há largos anos, vem alertando para procurar suster. Alertas e intervenção silenciadas por alguns dos mesmos que apareceram agora a perorar como se tivessem descoberto aquilo que há muito silenciam.

Um processo que tem o seu epicentro na política de direita de sucessivos governos do PS e do PSD, com ou sem o CDS-PP. Um processo que crescentemente partidarizou a escolha das chefias militares, promoveu o conceito de submissão e não de subordinação, penalizou quem questionava mesmo que fosse ou seja um militar de excelência. Animou os esquemas, transformou a velha máxima de que «a tropa manda desenrascar» em «a tropa manda agradar». Alimentou ao extremo a ideia de que seria possível fazer mais com menos – aliás, é isso que se houve nos discursos da praxe de ministros e de muitos chefes militares, ano após ano.

Que importou e importa que militares andem a saltar de navio em navio para assegurar guarnições ou que andem, no caso dos hélis, sistematicamente em voo? Que importou e importa que Cabos Mor continuem a fazer serviço como se tivessem chegado à Marinha há seis meses? Que importou e importa que em vez de valorizar e responsabilizar funcionalmente de baixo para cima, a opção seja desvalorizar em baixo para justificar o topo? Que importou e importa as sucessivas desvalorizações sócio-profissionais e ataques ao estatuído na Lei de Bases Gerais da Condição Militar através das alterações ao Estatuto dos Militares (EMFAR) ao Regulamento de Avaliação do Mérito, nos Direitos à Saúde, no Apoio Social, etc.? Que importa que no Lar da Runa o valor base tenha aumentado, ainda agora, 13,5 por cento e que em Janeiro se perspective outro aumento idêntico? Que importou ou importa que as alterações cortem no valor a receber pelas famílias em caso de morte de um militar em missão no estrangeiro? Que importou ou importa que por via das Associações Profissionais (APM), sejam elaborados e entregues estudos, análises e sugestões que não só são ignorados pelos que acham que hierarquia é sinónimo de exclusivo de sabedoria, como acham que podem desrespeitar a lei e que quanto mais a desrespeitarem com mais apreço contam?

Dúvidas, interrogações
e responsabilidades

Ficamos por aqui, mas a lista das interrogações poderia prosseguir. Todo esse processo terá no seu desenvolvimento, é inevitável, momentos que exporão as suas fraquezas ou fragilidades, algumas talvez bem maiores do que o assalto ao paiol de Tancos. Fique bem claro: o assalto ao paiol de Tancos é muito grave por todas as razões. Mas é-o menos o País não poder ter um navio (já aconteceu) para prestar apoio numa dada área marítima? E ter tripulações saturadas não o é? Não ter pilotos nas suas diversas formações, qualificações, funções e postos não o é? Ter militares desvalorizados e desmotivados, não o é?

Há muito que a Instituição Militar é sujeita a um sistema de alterações sucessivas, com umas medidas a sobreporem-se às outras, num processo atabalhoado porque desenvolvido assente no não investimento, para além da sua duvidosa necessidade a não ser para forçar um caminho de padronização com os modelos NATO e adaptação ao processo de federalização da UE. Um processo que desarticula, subverte conceitos, liquida métodos substituindo-os pelo vazio ou pela discricionariedade e que faz, em muitos casos,  apelo a um bom-senso que não se compra em lado algum, e que convive paredes meias com o muito conhecido princípio do «sempre foi assim».

Um processo que tem investido naquilo que não é necessário e não obtém ou investe naquilo que o é. Um processo que reduz a modernização ao reequipamento.

Dirão alguns, provavelmente os do costume, que o que aconteceu em Tancos nada tem a ver com isto. Alguns até serão tentados a comentar, desvirtuando o que se escreve, que «lá estão eles», até chamam à colação a NATO como se ela tivesse alguma responsabilidade pelo assalto a um paiol.

Acima do paiol de Tancos está um outro, metaforicamente falando, chamado Portugal.

IV Ciclo de Debates do LEPP/UFS: “O Brasil Não é Para Principiantes”

Resumo

Como o título deste ciclo sugere, tomamos como ponto de partida a célebre frase de Tom Jobim: “o Brasil não é para principiantes”. Esta frase tem sido mobilizada em um conjunto de publicações recentes que visam retomar as preocupações sobre os dilemas e os enigmas que marcam a formação social brasileira e as interpretações sobre o Brasil. A preocupação central deste ciclo não é a destacar a especificidade de nossa sociedade e sua suposta “singularidade”, mas sim a de examinar as limitações e os perigos que a importação de teorias e a universalização de conceitos trazem para as interpretações e compreensões do Brasil, uma vez que cria falsos dilemas e problemas de análise. Diante disso, esta quarta edição do ciclo de debates do LEPP tem dois objetivos centrais. O primeiro pretende apresentar um levantamento crítico dos estudos sobre grupos dirigentes no Brasil que considere, ao mesmo tempo, tanto a renovação trazida por tais abordagens, destacando as problemáticas novas que eles levantaram, quanto as ausências, os esquecimentos e as dificuldades vinculadas a tais formas de construção de tais grupos como objeto de análise. O segundo visa resgatar a sociologia política brasileira, considerando para isso as contribuições levantadas referentes às condições e às dinâmicas de formação e composição dos grupos dirigentes, do Estado e da política no Brasil.

Os “Ciclos de Debates do Laboratório de Estudos do Poder e da Política” visam promover um espaço de discussão de temáticas concernentes aos estudos dos grupos de pesquisa realizados no laboratório. Tal laboratório está estruturado em torno de um conjunto de preocupações analíticas comuns, dentre as quais se destaca a reflexão sobre os princípios de estruturação e as dinâmicas de funcionamento do poder e suas relações com gramáticas e práticas políticas diversificadas. Trata-se, com isso, de dar conta das condições e dos processos de recrutamento e de seleção e das estratégias de reprodução e consagração social acionadas por atores e grupos diversificados (políticos, profissionais, militantes, culturais, religiosos, etc.), como também de apreender as gramáticas políticas e as lógicas práticas de suas intervenções em diferentes espaços sociais. As ações desenvolvidas pelo laboratório estão voltadas para a realização de pesquisas sobre os movimentos sociais, os partidos políticos, os grupos profissionais, a formação de elites (políticas, culturais, profissionais e religiosas) e as políticas públicas.  Nesse evento contaremos com professores, profissionais e pesquisadores convidados e trataremos de temas vinculados aos projetos de iniciação científica coordenados por professores do LEPP, assim como, monografias, dissertações e teses de doutorado produzidas a partir de orientações do laboratório.

Programação

MESA I – A ELITE BRASILEIRA NÃO É PARA PRINCIPIANTES

Moderador:

Prof. Dr. Wilson José Ferreira de Oliveira (LEPP/DCS/PPGS/UFS)

Expositores:

Profa. Dra. Fernanda Rios Petrarca (LEPP/DCS/PPGS/UFS)

Prof. Dr. Wilson José Ferreira de Oliveira (LEPP/DCS/PPGS/UFS)

Data: 21/07/2017

Horário: 14h
Local: Auditório do Dep. de Geografia (Bloco Departamental II)

MESA II – FAMÍLIA, PARENTELA E POLÍTICA: Maria Isaura e Antônio Cândido

Moderadora:

Profª Fernanda Rios Petrarca (LEPP/DCS/PPGS/UFS)

Expositores:

Victor Marcell Gomes Barbosa (Graduando LEPP/DCS/UFS)
Pâmella Synthia Santana Santos (Doutoranda LEPP/PPGS/UFS)
Data: 04/08/2017

Horário: 14h

Local: Auditório do Dep. de Geografia (Bloco Departamental II)

MESA III – ELITES POLÍTICAS, ESTADO E PARTICIPAÇÃO: José Murilo de Carvalho

Moderador:

Prof. DR. Wilson José Ferreira de Oliveira (LEPP/DCS/PPGS/UFS)

Expositores:

Igor da Silva Salmeron (Doutorando LEPP/PPGS/UFS)

Jonatha Vasconcelos Santos (Doutorando LEPP/PPGS/UFS)

Mauricio Izelli Dore (Doutorando LEPP/PPGS/UFS)

Data: 18/08/2017

Horário: 14h

Local: Auditório do Dep. de Geografia (Bloco Departamental II)

MESA IV – INTÉRPRETES DO BRASIL: Silvio Romero e Manoel Bomfim

Moderadora:

Profs. Dra. Fernanda Rios Petrarca  (LEPP/DCS/PPGS/UFS)

Expositores:

Ivan Fontes Barbosa (Mestre/PPGS/UFS)

Prof. Dr. Ivan Paulo Silveira Santos (DCS/PPGS/UFS)

Data: 01/09/2017

Horário: 14h

Local: Auditório do Dep. de Geografia (Bloco Departamental II)

 

Clima de caça às bruxas contra ideias de esquerda é muito preocupante, alerta sociólogo

Marco Weissheimer

Nos últimos meses tem crescido o número de relatos de casos de “denúncias” dirigidas contra professores de universidades e também de escolas de ensino médio, acusados de praticarem uma espécie de “doutrinação marxista” dentro das salas de aula. Inicialmente restritas a figuras mais caricatas como Olavo de Carvalho, essas denúncias vêm ganhando, porém, maior visibilidade midiática e o suporte de grupos de direita e extrema-direita articulados nacional e internacionalmente. “Há uma caça às bruxas muito preocupante dirigida contra um tipo de pensamento (de esquerda), como se ele fosse inaceitável”, diz Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-RS. Em entrevista ao Sul21, o sociólogo fala sobre o crescimento da atuação desses grupos dentro do ambiente acadêmico e relata um caso que viveu recentemente, quando um aluno gravou clandestinamente uma conversa na sala da coordenação do PPG e divulgou-a nas redes sociais como suposta prova da existência de uma “doutrinação marxista” dentro do programa de pós-graduação.

“Por mais que a gravação não tivesse nada que pudesse ser usado contra mim, ela causa um constrangimento. Para as pessoas que não gostam de mim, que acham que eu sou um esquerdista defensor de criminosos, é mais um argumento. Não interessa se é verdadeiro ou não, ele vai ser jogado nas redes sociais”, diz o professor.

Sul21: Em uma recente atividade na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, você falou sobre o crescimento de um clima de caça às bruxas, de caráter ideológico, dentro do ambiente acadêmico, dirigido contra o que seus promotores chamam de “doutrinação marxista” dentro das universidades. Qual é a dimensão deste fenômeno?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Estou na PUC há dez anos e a instituição é muito isenta neste sentido. Há cerca de 20 anos, a PUC estabeleceu um sistema de pós-graduação muito sólido que foi se consolidando ao longo do tempo. Hoje, os critérios e contratação de professores, especialmente os vinculados à pós-graduação, são muito objetivos e vinculados aos critérios da Capes, como produção acadêmica e publicação em revistas científicas, o que nos permite ter uma total liberdade de cátedra e de pesquisa. Os professores são submetidos a avaliações anuais com critérios que são bastante claros, que não se vinculam inclusive à própria questão da confissão religiosa da instituição. No contexto político que estamos vivendo hoje é evidente que há tensões, que aparecem mais em alguns cursos do que em outros. Em certas faculdades, há alguns alunos que têm uma posição mais ideológica de defesa de um pensamento liberal, entre aspas, e contrário ao governo, que tem tentado, de alguma forma, criar algum constrangimento a professores que têm outra posição sobre a conjuntura que o país está vivendo. Mas ainda podem ser consideradas situações normais e não vinham sendo motivo de grandes preocupações.

Mas tivemos um caso preocupante aqui na Pós-Graduação das Ciências Sociais, que é um curso que lida com temas bastante polêmicos do ponto de vista político, sob uma  perspectiva científica. Como ocorre todos os anos, nós fizemos em dezembro a seleção para o mestrado e um aluno que foi selecionado em 19º lugar (em um total de 20 vagas) ingressou no Programa. Esse aluno tinha no currículo uma formação em Direito na USP e outra em Administração na Fundação Getúlio Vargas, uma formação considerada boa do ponto de vista de uma seleção de mestrado, embora não tivesse apresentado nenhuma produção acadêmica. Uma coisa chamou a atenção da banca de seleção: no seu currículo, ele dizia ser funcionário da Abin (Agência Brasileira de Informação) e que , para ingressar na agência que sucedeu o SNI (Serviço Nacional de Informações) ele teve que fazer cursos de investigação e espionagem via internet, entrevistas de suspeitos e de operações especiais. Mas ninguém levou isso muito a sério. Era um aluno com formação em Direito e Administração, querendo fazer mestrado em Ciências Sociais, que acabou entrando nestas 20 vagas que o curso oferece.

Sul21: Quais foram os problemas enfrentados neste caso?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: No início de março começaram as aulas. A primeira aula foi ministrada pelo professor da disciplina de “Movimentos e Organizações Sociais”. Esse aluno, já nesta primeira aula, se mostrou muito interessado em confrontar o professor e os colegas, dizendo que a visão dele (aluno) era uma visão liberal e que gostaria que os temas fossem discutidos a partir dos autores que ele achava importantes e não aqueles que estavam sendo apresentados pelo professor. Também disse que os alunos que estavam ali eram, em sua maioria, bolsistas e representantes de minorias, o que, para ele, era muito estranho, pois não aceitava bolsa. Por fim, ele acabou acusando o professor de incitação à violência, por discutir o papel dos movimentos sociais no tensionamento da ordem estabelecida. A bibliografia utilizada por esse professor é, basicamente, ligada à Escola de Frankfurt, com nomes como Habermas, Honneth e outros nomes atuais que estão filiados à tradição dessa escola que é absolutamente legítima dentro das Ciências Sociais. O aluno considerava essa bibliografia inadequada por ter, na visão dele, vinculação com o marxismo.

Na aula, o clima ficou tenso e alguns alunos se confrontaram com ele. Se a situação tivesse ficado apenas neste âmbito acho que não teria havido maiores consequências. No entanto, neste mesmo dia ele foi para casa e escreveu um post no Facebook, dizendo que a turma era formada por minorias, que ele nem sabia quais eram, que ele tinha se sentido constrangido pois não era aceito dentro da turma, que a maioria da turma era ligada ao PT e tinha votado na Dilma nas últimas eleições, o que mostraria uma falha no processo seletivo da PUC. Além disso, acusou o professor de incitar a violência dos movimentos sociais, o que era algo muito grave e perigoso e que ele tomaria providências em relação a isso.

No mesmo dia, isso chegou ao meu conhecimento como coordenador do programa de pós-graduação e eu chamei ele para conversar, pois havia se criado um clima de constrangimento e insegurança na turma. Eu conversei com ele na mesma semana em que essa aula aconteceu. Ele chegou acompanhado de um assessor do deputado Marcel van Hattem.

Sul21: Ele se apresentou como assessor do deputado van Hattem?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Sim. Ele foi apresentado como assessor do deputado. Eu disse a eles, então, que a conversa dizia respeito a uma questão interna do programa e que seria uma conversa minha com esse aluno, sem a participação de terceiros. O assessor do deputado aceitou a minha argumentação, os dois conversaram entre eles e ele foi embora. Tivemos então uma conversa de uma hora e dez minutos nesta mesma sala. Antes dele argumentar qualquer coisa eu falei sobre o que ele havia escrito no Facebook, agredindo o programa de pós-graduação, o professor e os colegas. Disse ainda que ele estava entrando em um curso de pós-graduação onde os professores são avaliados pela instituição pela sua produção acadêmica que é, por sua vez, avaliada pela Capes, uma instituição criada para o monitoramento das pós-graduações e que analisa o que é feito a partir de publicações científicas que também são hierarquizadas.

Falei também que cabia a cada professor definir o tema, a bibliografia e a metodologia utilizada em aula, e que isso não era objeto de discussão. Disse que, se ele não estava satisfeito com isso e achava que tinha feito uma escolha errada, poderia reavaliar sua permanência no curso. Mas se a decisão fosse por continuar no curso, teria que aceitar as regras de funcionamento do mesmo. Ele tentou argumentar, dizendo que no exterior as coisas não eram assim, que os alunos tinham muito mais autonomia para apresentar suas visões e havia muito mais preocupação com a pluralidade. E me perguntou se, no curso de pós-graduação, havia algum professor cuja visão fosse mais próxima da dele. Respondi que o programa tem dez professores, com várias visões, inclusive próximas da dele em relação a crítica ao atual governo. A conversa ficou por aí.

No outro dia, ele escreveu um post em uma rede social dizendo que havia conversado com o coordenador do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da PUC e que este teria dado o passo-a-passo de toda a doutrinação ideológica dos programas de pós-graduação. “Só que ele não sabia que eu tinha um i-phone”, acrescentou, sugerindo que tinha gravado toda a conversa. Isso ocorreu numa sexta-feira. Na segunda-feira vim para a PUC já disposto a conversar com o setor jurídico para informar o que estava acontecendo e ver as providências a serem tomadas. Quando cheguei aqui no programa, havia várias ligações do assessor do deputado van Hattem. Eu liguei para ele, que me disse o seguinte: “Eu estive aí com esse aluno, mas nós constatamos que a situação não era aquela que ele havia nos colocado. Então, nós não estamos dando guarida para essa ação dele. O nosso mandato atua na defesa de vários alunos que têm sofrido perseguição ideológica e doutrinação ideológica nas escolas e faculdades, mas sabemos que na pós-graduação as coisas são diferentes”. Me parece que verificaram o conteúdo da gravação e avaliaram que não havia o que pudesse ser utilizado contra mim ou contra a instituição. De fato, eu não disse nada que não fosse institucional. Eu até imaginava que ele pudesse estar me gravando, mas eu diria a mesma coisa em qualquer situação.

Sul21: Você já suspeitava que poderia ter a conversa gravada?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Sim, eu suspeitava. Nós temos tido situações envolvendo professores e alunos que têm gerado certo desconforto. Muita gente já me disse: ‘não conversa com aluno sozinho’. Eu nunca adotei esse tipo de procedimento, acho bom ter uma relação de confiança com alunos e orientandos. Mas há colegas que já foram acusados de assédio sexual e assédio moral. Aí, até provar que a situação não é aquela (se de fato não é), a pessoa já está condenada nas redes sociais. Então, tem muita gente que está preocupada com isso. Eu nunca havia me deparado com uma situação como esta, mas suspeitei que ele poderia tentar fazer uma gravação ou algo do tipo. Quando ele chegou com um assessor do deputado, aí eu senti que era uma situação mais delicada mesmo e me precavi. Mas a minha conversa foi totalmente espontânea. Falei para ele o que falaria para qualquer outro aluno.

A assessoria jurídica da PUC me informou que, pelo regimento, ele não poderia ser expulso simplesmente por esse fato, mas poderia sofrer uma advertência do coordenador do programa. Fiquei aguardando ele retornar ao curso para encaminhar a advertência, mas ele não apareceu. Então  publicou um terceiro post, alguns dias depois, com a gravação de nossa conversa de uma hora e dez minutos. Junto com a gravação, ele publicou uma carta dirigida a mim, que não tem nada a ver com o conteúdo gravado. Pouca gente vai ouvir uma hora e dez minutos de uma conversa sem maior interesse. O objetivo da carta era criar um clima para afirmar que a conversa era uma prova da existência de uma doutrinação ideológica marxista no curso. Segundo ele, nove dos dez professores do programa seriam marxistas. A PUC já estava alerta e eu procurei novamente o jurídico e também a assessoria de comunicação da Universidade. A sugestão foi mais uma vez pela advertência e, se ele fizesse mais alguma coisa, estaria fora.

Sul21: Enquanto tudo isso ocorria, ele seguiu participando das aulas?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Não, ele compareceu somente naquela primeira aula. Se ele quisesse produzir uma crítica mais embasada e profunda sobre o Programa deveria ao menos ter assistido mais aulas e conhecido outros professores. Mas não, ele veio a apenas uma aula. A repercussão do que ele publicou ficou restrita basicamente à rede da qual ele participa. No final do ano passado, o blog de um jornalista gaúcho havia publicado um texto dizendo que, nas Ciências Criminais da PUC, havia vários alunos reclamando de doutrinação ideológica de professores petistas e comunistas. Eu era um dos citados, junto com outros colegas meus. Mas, desta vez, não houve maior repercussão, apesar de um grande número de compartilhamentos entre os seguidores do aluno.

No último capítulo desse caso, eu redigi uma carta de advertência para ele e encaminhei via correio. Ele recebeu a carta e publicou um último post dizendo que estava desistindo de fazer mestrado na PUC, porque aqui não havia espaço para as ideias dele, que éramos um bando de doutrinadores comunistas e que ele estava indo para Harvard…

Sul21: Por que você decidiu falar sobre esse episódio?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Quem ouve toda essa história pode achar que se trata de um maluco que não oferece grande perigo. Eu não acho que seja isso. Trata-se de alguém articulado, com alguma formação acadêmica. Além disso, eu relatei esse episódio para uma rede de colegas das Ciências Sociais do país inteiro e uma colega minha de São Paulo disse que esse mesmo sujeito havia feito algo muito parecido na FGV contra o cientista político Cláudio Couto, um pesquisador reconhecido que é da direção da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais). Ele fez um movimento pela demissão do Cláudio Couto porque ele estaria defendendo o PT e o PT seria um grupo criminoso que teria matado o Celso Daniel. Parece que, na FGV, ele conseguiu algum apoio entre colegas, coisa que, aqui na PUC, não aconteceu. Aqui caiu no vazio, a partir da gravação que ele fez comigo.

Outra razão que me levou a falar sobre o caso foi o fato de que ele fez a postagem com a gravação numa sexta-feira e na segunda-feira seguinte, Luiz Felipe Pondé publicou um artigo na Folha de S.Paulo falando sobre a “doutrinação ideológica” nas universidades brasileiras e como ela funcionaria a partir da concessão de bolsas e de controle de recursos que seriam direcionados para alunos e professores que concordam com o governo. Antes disso, Fernando Schüller publicou recentemente um artigo na revista Época sobre a suposta “contaminação comunista” dos livros didáticos do MEC para o segundo grau. Eu acredito que a atitude desse aluno está vinculado a um movimento mais amplo que envolve não só a derrubada do governo, mas também a ocupação de espaços, que esse grupo acredita, foram perdidos no âmbito acadêmico, discurso muito repetido por Olavo de Carvalho, entre outros.

Esse aluno participa também de uma rede de formação de jovens de direita, ou “liberais”, que eu sempre coloco entre aspas, pois liberais não se comportam dessa maneira. Essa rede conta com a participação de várias figuras importantes  na área de ciência política, que defendem uma ideologia mais à direita. Se o resultado dessa formação se limitasse a uma disputa de ideias não haveria problema algum. A academia é plural e essa disputa de ideias é importante. O problema é que se o método é esse de gravações escondidas e ataques pessoais, aí tem alguma coisa errada. Alguém que grava conversas de forma clandestina no ambiente acadêmico pode editar tais conversas e publicá-las de forma totalmente deturpada, entre outras coisas. Por isso acho importante que isso venha a público.

Sul21: Essas acusações dando conta de uma suposta doutrinação marxista na universidade e nas escolas começaram há alguns anos, feitas por algumas figuras meio caricatas. Mas, graças aos espaços que ganharam na mídia, essas acusações parecem que vem crescendo de dimensão. Além disso, há relatos de situações similares a estas que você vivenciou em outras universidades e escolas também. Como você avalia esse fenômeno?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Embora os argumentos sigam caricaturais, pela abrangência que vêm ganhando e pela aceitação que acaba tendo dentro da mídia e dentro de uma sociedade muito polarizada, isso ganhou repercussão. É preciso assinalar que, mesmo dentro das Ciências Sociais, o pensamento marxista hoje está muito marginalizado. Desde os anos 80, com a queda do Muro de Berlim e do chamado socialismo real, houve um aprofundamento do debate teórico e até metodológico que trouxe outras influências. A teoria social contemporânea incorporou alguns elementos de Marx, mas incorporou várias outras coisas também. Por isso, para nós, essa conversa de “doutrinação marxista” é algo muito estranho.

A realidade da universidade no Brasil, hoje, não tem nada a ver com isso. Na verdade, o que eles chamam de marxismo é qualquer coisa que envolva a defesa de direitos humanos, direitos sociais, de “minorias”, e de tudo o que, nestes últimos doze anos, possa ter significado um avanço social. Com todas as críticas que se possa ter, os governos do PT avançaram muito deste ponto de vista. Lula promoveu no Brasil uma espécie de pacto social, trazendo para o governo outros partidos e outros setores, incluindo o empresariado. Em troca disso, conseguiu inserir na agenda do País o combate à miséria, ações afirmativas, políticas de enfrentamento da violência contra a mulher e uma série de outras coisas que não estavam na pauta política nacional. Isso tem alguma coisa a ver com marxismo? Não tem nada a ver. Está mais para uma agenda social-democrata, de ampliação do Estado democrático de direito para setores que, historicamente, ficaram de fora. Foi isso o que aconteceu no Brasil.

Dentro da universidade existem, sim, pessoas e grupos que têm afinidade com o que foi feito neste período e que se contrapõem a uma forma de fazer oposição ao governo que é muito pouco democrática, não aceitando o resultado das eleições de 2014. Desde os resultados eleitorais, se tenta, de alguma forma, derrubar o governo, seja por pedidos de recontagem de votos, por impeachment por pedaladas, impeachment por financiamento de campanha. Os argumentos vão mudando ao longo do tempo, mas o objetivo é o mesmo. É isso que unifica e dá uma lógica para a oposição, só que essa lógica é muito perigosa para a democracia. Além de não respeitar o resultado do voto popular, ela deu proeminência para grupos que não têm nenhum compromisso com a democracia. São grupos fascistas, de negação do outro, ligados a movimentos como o Vem Pra Rua, Revoltados Online, Movimento Brasil Livre, Banda Loka Liberal, entre outros.

A universidade brasileira avançou muito nas últimas décadas a partir de critérios de produção científica. Isso deu um status à produção acadêmica brasileira que ela não tinha no mundo. Esse discurso de uma suposta doutrinação marxista dentro da universidade é totalmente descolado da realidade, mas está vinculado a uma forma de fazer política, que pretende produzir, esse sim, um pensamento único. Segundo esse pensamento, não se pode defender o governo porque ele é criminoso, tudo o que está ligado ao governo está ligado a um pensamento marxista, bolivariano, comunista, seja lá o que for, e isso tem que ser derrubado pois esta é a única maneira de o Brasil se manter dentro de uma perspectiva liberal capitalista. É esse discurso ideológico que foi sendo construído ao longo dos últimos anos, a partir de uma ideia falsa tanto em relação à academia quanto em relação ao governo.

A esquerda latino-americana tem experiências mais ou menos democráticas. Poucas são tão democráticas como o que o PT fez neste período, sendo, aliás, criticado por não ter entrado no debate sobre o controle da mídia, por ter colocado no Supremo Tribunal Federal pessoas que não têm um alinhamento ideológico com o governo, pelo contrário, e também por ter implementado essa ideia de um pacto, o que está muito ligado ao pensamento do lulismo. O PT fez muitas concessões e ninguém pode falar que o governo foi autoritário ou totalitário. O problema é que, para construir a narrativa do impeachment, se bateu repetidamente sobre essa tecla de um suposto “totalitarismo” petista.

Várias revistas, jornais, televisões e outros meios de comunicação desempenharam um papel fundamental neste processo ao longo dos últimos anos, minimizando os pontos positivos do governo e maximizando a visibilidade da crítica. O Jornal Nacional não exibiu, por exemplo, o vídeo com o discurso da Janaína Paschoal, que mostraria quem é a pessoa que está defendendo o impeachment no Congresso. Imagine se a Dilma, que inclusive foi chamada de perturbada e desequilibrada pela revista Isto É, fizesse um discurso como aquele… Eles estão com uma espécie de carta branca para agir. É uma guerra suja, uma forma de atuação política que a gente já conhece porque a direita brasileira, historicamente, faz esse tipo de coisa, e que tem tido uma tolerância e até uma adesão por parte da mídia e, eu diria até, por parte das instituições.

Trabalho com pesquisas sobre a Polícia e o Poder Judiciário e sei que dentro dessas instituições existem grupos que estão vinculados a essa ideologia de que é preciso derrubar o governo a qualquer preço, o que tem gerado conexões entre todas essas estruturas que se movimentam em torno dessa proposta. Isso é grave porque, num estado democrático de direito, quando uma coisa dessas acontece, as instituições têm que funcionar para proteger o cidadão que está sofrendo esse tipo de ameaça. Hoje, não há confiança de que isso vá acontecer. Estamos entrando numa espécie de vale tudo, que precisa ser evitado por quem tem compromisso com a democracia.

Sul21: No último grande ato no Parcão, realizando por esses movimentos que defendem a derrubada do governo, as referências políticas e teóricas exibidas no caminhão que servia de palanque para a manifestação eram nomes como Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Von Mises, que a maioria dos que estavam ali não deveria saber quem era. Temos um fenômeno social e político novo aí, com uma pequena vanguarda de extrema-direita dirigindo expressivos setores da classe média?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Acredito que sim e isso está muito próximo do debate político norte-americano, onde os democratas e o Obama especialmente são chamados de comunistas pelo Tea Party. Esse grupo dentro do Partido Republicano tem, hoje, os principais candidatos que disputam a indicação para concorrer à Casa Branca. O deputado Marcel van Hattem participou de eventos deste grupo nos Estados Unidos. Recentemente, foi divulgado um vídeo nas redes sociais mostrando o deputado fazendo uma pergunta em um desses encontros. Os grupos que tem liderado as manifestações contra o governo no Brasil estão se negando a informar de onde vem os recursos que estão recebendo, dizendo que se trata apenas de contribuições voluntárias. Então, há de fato uma direita mais orgânica, com articulações internacionais, se organizando no Brasil e em outros países da América Latina.

Esse grupo ainda não tem uma organicidade política. O PSDB não é a referência para eles, até porque consideram os tucanos culpados pela ascensão do PT e incapazes de fazer uma oposição sólida. Eles querem outra coisa e já há inclusive iniciativas neste sentido. A própria situação do Van Hattem é desconfortável dentro do PP, porque como ele pode sustentar esse discurso de combate à corrupção quando o seu partido é um dos que tem mais envolvidos nas denúncias da Lava Jato?

Sul21: Voltando ao ambiente universitário, você referiu que já há um certo receio de alguns professores de conversar a sós com estudantes, por temer coisas como gravações clandestinas ou denúncias de assédio feitas nas redes sociais. Na sua opinião, há um crescimento deste clima de desconfiança dentro da academia?

Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: Eu não sei qual é a realidade em outras instituições. Aqui na PUC eu não posso dizer que tenha havido qualquer tipo de respaldo a atitudes como esta que relatei. Pelo contrário, a PUC tem hoje uma forma de ação acadêmica totalmente isenta, no sentido de que os professores têm total autonomia desde que respeitem os critérios científicos estabelecidos pela Capes. Mas, sim, entre os professores têm crescido a preocupação por causa de condutas como a que relatei. Gravações feitas sem o conhecimento do professor e divulgadas nas redes sociais, falas que são retiradas de contexto e coisas desse tipo. Que haja preocupação com o que é dito em sala, e que os alunos se mobilizem para cobrar da instituição critérios claros de relacionamento acadêmico, evitando constrangimentos, assédio ou falta de critérios por parte dos professores é uma coisa. Por isso mesmo temos um código de ética na instituição que estabelece regras para os seus integrantes. Outra coisa é a caça às bruxas dirigida contra um tipo de pensamento (de esquerda), como se ele fosse inaceitável. Quando esse fato aconteceu aqui na PUC os meus colegas ficaram muito preocupados. Por mais que a gravação feita pelo aluno não tivesse nada que pudesse ser usado contra mim ou contra a instituição, ela causa um constrangimento. Para as pessoas que não gostam de mim, que acham que eu sou um esquerdista defensor de criminosos, é mais um argumento. Não interessa se é verdadeiro ou não, ele vai ser julgado nas redes sociais.

O clima é muito preocupante porque neste momento há um movimento organizado para a deslegitimação de professores que têm posição política. Eu não faço doutrinação ou política partidária em sala de aula. Quando aparece um tema da atualidade, eu procuro mostrar as diferentes visões que existem sobre esse tema. Acho importante que o professor não suba no palanque quando está em sala de aula, mas isso não impede que eu use outros espaços na minha condição de cidadão. O objetivo deles é justamente criar esse tipo de constrangimento. Professores horistas, que não estão na pós-graduação, estão em início de carreira e ainda não tem uma produção acadêmica tão reconhecida, estão numa situação de maior fragilidade e já manifestam bastante receio neste momento. Isso envolve também professores de segundo grau. Há algum tempo, a revista Veja fez uma matéria contra um professor de história de uma escola tradicional de Porto Alegre, acusando-o de “doutrinação marxista”. A situação é realmente muito preocupante pelo crescimento desses casos.