Socialismo Utópico e Socialismo Científico

INTRODUÇÃO

O Socialismo, bem como sua vertente mais bem acabada, o comunismo, é a mais importante proposta teórica revolucionária dos tempos modernos. Suas origens remontam ao início do século XIX, quando do esforço burguês para apaziguar as agitações operárias, alguns membros reformadores da classe formularam críticas severas á nova sociedade industrial e aos sistemas socioeconômicos capitalistas. Segundo eles, a produção e a distribuição de renda e de produtos deveriam ser planejadas, e as relações de trabalho tinham que ser modificadas a fim de tornarem-se mais justas. O Socialismo, então, surge dessas formulações e ramifica-se em duas correntes: Socialismo Utópico e Socialismo Científico.

Em geral, desde o momento em que surge a propriedade privada dos meios de produção, e com ela os antagonismos de classe, levantaram-se vozes e surgiram movimentos-isolados sempre-contra as injustiças, os abusos da opulência, as esperanças de um futuro melhor. O elemento comum em todos esses movimentos, é que nenhum tinha por ideal a implantação da propriedade comunal, coletiva para toda a sociedade, mas apenas para um setor de classe ou para os adeptos, os “eleitos” de uma seita religiosa qualquer. Nada disso, ao nosso ver, pode ser confundido com Socialismo.

A primeira vez em que é colocada a questão da propriedade coletiva, igualitária em termos de uma sociedade inteira, (e não apenas facções dela),surgiu no século XIX, de maneira um tanto romântica, como descrição de sociedades imaginárias.

Aí estaria a pré-história do Socialismo. Este divide-se em três momentos:o socialismo reacionário(feudal, pequeno-burguês),o socialismo utópico e o socialismo científico. A esses dois últimos, entretanto, será dedicado este trabalho, que tem por pretensão apresentar a diversidade e a riqueza de que o pensamento socialista é portador, enfocando também as distinções entre ambos, bem como os principais pensadores que os representam.


O SOCIALISMO UTÓPICO E O SOCIALISMO CIENTÍFICO

A ideologia Socialista Moderna é essencialmente fruto dos ideais que impulsionaram a Revolução Francesa e do advento da industrialização com a Revolução Industrial Inglesa. Esses dois grandes eventos históricos trouxeram um estado de conflito entre duas classes sociais antagônicas: a burguesia conquistadora(exploradores) e o proletariado em formação(explorados). Assim, os socialistas têm se empenhado, desde então, a eliminar ou pelo menos atenuar tal conflito.

Entre o final do século XVIII e início do século XIX, reformadores da época evidenciavam e até exaltavam as injustiças sociais, porém, não tratavam das possíveis soluções para o problema em questão. Em meio á presença das desigualdades sociais e á ausência de soluções para tal problemática, os homens começaram a fabricar em seu cérebro sistemas sociais melhores do que aquele que gerava as injustiças. Surge, então, o Socialismo Utópico, uma concepção de espírito determinada pela existência das desigualdades entre as classes, defendendo a idéia de que o elixir para os males sociais tinha que ser buscado no cérebro dos homens e não da evolução da sociedade.

A utopia dessa vertente do pensamento socialista está justamente no fato dele consistir menos no conteúdo do seu sistema do que no fato de não ter em nenhuma conta o grau de maturidade do período histórico considerado, vendo portanto, as transformações sociais como fruto do estado de espírito de justiça dos homens. Em suma, os utópicos não se baseavam num método de análise da realidade(ao contrário de Marx com o Socialismo Científico),sendo suas idéias fruto do idealismo pequeno-burguês.

Saint-Simon é um dos principais representantes do Socialismo Utópico. Para ele, a sociedade estava repousada na indústria e esta, juntamente da tecnologia, poriam fim á miséria. Sua doutrina era baseada na filosofia do trabalho, alegando quem sem este, nada existiria. Condenava, então, a ociosidade, para ele muito bem representada pelo poderio clerical-feudal, defendendo a idéia de que o governo deveria estar sob o comando dos “produtores”(tanto os empresários quanto os operários).

No período de 1818 à 1820, Saint-Simon passa a refletir sobre a parte mais numerosa da nação trabalhadora (a parte oprimida e dominada),em busca de uma solução para melhorar as condições de vida dessas pessoas. Essa sua reflexão exerceu uma forte dose de influência para alguns de seus discípulos, a exemplo de Marx, principalmente com a abordagem que fez sobre a luta de classes: ” A espécie humana esteve até o presente dividida entre duas frações desiguais, sendo que a menor delas constantemente empregou todas as suas forças, e muitas vezes até uma parte das forças da maior para dominar esta última.”

Hegel é outro grande exemplo a ser destacado quando falamos em Socialismo Utópico. Ele propõe uma articulação entre um sistema de pensamento que demonstre a unidade de todas as coisas como um “espírito absoluto” através da dialética, que consiste no movimento de suprassunção das oposições entre pensamento e realidade, unificando o absoluto no espírito, o que ele denomina de História. Trataria-se de uma dinâmica que, a partir da contradição dos opostos, surgiria uma síntese contendo a unidade do que era divido anteriormente. O tempo, por exemplo, corresponderia á dinâmica desse processo dialético, posto que quando ele é, imediatamente já não é mais.

Diferentemente da maneira metafísica de pensar, a dialética trata os fatos levando em conta suas diversas desencadeações, o dinamismo de cada um, bem como seu processo de desenvolvimento, comprovando então que os acontecimentos se dão em meio aos caminhos traçados pela dialética e não pelas trilhas metafísicas, as quais tratam os fatos com monotonia, como se fossem imutáveis.

Hegel era profundamente idealista. Suas idéias eram projeções realizadas no âmbito da “Idéia”, em vez de serem um reflexo dos objetos ou fenômenos da realidade.

O idealismo também marcou presença forte nos pensamentos de Charles Fourier,o qual idealizou uma sociedade perfeita embasada da divisão do trabalho em conformidade com a natureza humana, considerando as paixões próprias dos diversos indivíduos. Seu grande princípio estava na necessidade de se satisfazer as paixões humanas, as quais não devem ser contrariadas, uma vez que afloradas, transformariam a sociedade.

Fourier defendia a idéia de que o livre dinamismo da indústria conduziria, automaticamente ,a uma ordem social mais coerente, porém, fez duras críticas á ambição mercantil e á concorrência desenfreada, atribuindo ao comércio as causas do “mal social”. Outra característica importante a ser lembrada, é que sua utopia social encontra respaldo nas idéias de Deus, uma vez que acredita que o homem e as coisas da natureza estão em concordância divina e tudo é verdadeiro e bom, chegando a reconhecer a exuberância total da vida – momento este que é considerado o clímax de sua utopia – . Fourier trata mais da obrigação de ser feliz do que da necessidade de agir, organizar e dominar a produção, exaltando o dinheiro como uma “mania saudável” e uma “alegre paixão”, deixando claro seu amor pelas riquezas e pelo prazer.

Owen é outro grande exemplo, que não pode ser esquecido dentro do pensamento socialista utópico. Sua contribuição nasce da própria experiência, uma vez que instala em New Lanark(Escócia),uma comunidade inspirada nos ideais utópicos, na qual foi montada uma fiação onde foi promovida a organização de serviços comunitários de educação, saúde e assistência social, fornecendo, portanto, condições de vida mais dignas a seus operários. A comunidade passa a se autogerir e todos os integrantes são pertencentes á mesma classe.

De 1824 à 1829, Owen tentou realizar na América uma colônia comunitária chamada “New Harmony”, a qual fracassou, consumindo grande parte de seus bens. Ele retornou para a Inglaterra, tornando-se o guia do movimento operário, aderindo á ação cooperativa, já que acreditava que a felicidade social seria encontrada nas cooperativas(“comunismo oweniano”).

Profundamente influenciado pelas idéias ilustradas do Iluminismo, Robert Owen defende a “Revolução pela Razão”, uma vez que para ele, a miséria e os males da humanidade eram frutos de um conhecimento inadequado. A intelectualidade, portanto, seria a solução para o mal que atinge os homens. Extremamente racionalista e determinista, o fundamental em sua perspectiva era agir sobre as circunstâncias, defendendo a idéia de que são essas que explicam tudo da vida de cada homem.

Apesar do fracasso de suas idéias(a exemplo de “New Harmony”), Owen foi o grande responsável por todos os movimentos sociais e progressos de fato ocorridos no âmbito da classe trabalhadora da Inglaterra.

As tentativas de revolucionar as relações de produção por parte dos socialistas utópicos não progrediam. Elas pressupunham a existência de um modelo socialista numa sociedade em que imperavam as normas capitalistas burguesas. Desta forma, logo ia tornando-se claro que as relações de produção socialistas só teriam efeito numa sociedade regida por normas socialistas. Para que isso ocorresse, era necessário que as relações capitalistas fossem destruídas e tal iniciativa, claro, não seria tomada pelo capitalista, mas sim, pela classe oprimida, o proletariado, ocorrendo, então, uma verdadeira revolução social. A partir daí, surge, no século XIX, uma teoria que pressupunha a ação efetiva da classe trabalhadora. Trata-se da outra vertente do pensamento socialista, denominada Socialismo Científico, o qual analisaremos mais profundamente a seguir.

O Socialismo Científico nasce a partir do momento em que a doutrina socialista torna-se uma Ciência. É a “expressão teórica do movimento proletário”(Engels,”Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico” ),e rompe com o Socialismo Utópico por apresentar uma análise crítica da realidade econômica, da evolução histórica, das sociedades e do capitalismo. Karl Marx e Friedrich Engels chegam a enaltecer os utópicos por seu pioneirismo, além de por estes terem sido influenciados, uma vez que emprestaram do utopismo a idéia de que o homem pode ser transformado e modificado profundamente por meio de circunstâncias históricas novas, além dos conceitos importantes sobre o proletariado, etc. Porém, os socialistas científicos defendem uma ação mais prática e direta contra o capitalismo através da organização da revolucionária classe proletária. Eles observam os fatos buscando a descoberta das leis que os regem, considerando os antagonismo sociais e a necessidade de dar á classe oprimida a consciência de seu papel histórico. Á medida em que os fatos são observados, conclui-se que a História transforma-se continuamente, e que essas transformações são causadas pelo desenvolvimento da técnica, dos instrumentos de produção e a medida que esses se desenvolvem, são criadas as condições de uma transformação econômica.

Numa economia socialista, os instrumentos de produção são propriedade coletiva, pertencendo a toda coletividade, A produção é ajustada de acordo com as necessidades. Assim sendo, o Socialismo Científico vê como solução para os problemas trazidos pelo capitalismo a substituição da organização embasada na minoria privilegiada(financeiros) por uma organização fundada sobre os interesses da coletividade.

Marx fundamentou seu estudo da sociedade capitalista numa abordagem histórica, chamada de Materialismo Histórico. Por meio deste ,ele procurou simplificar as complexas relações de causa e efeito que relacionavam as diversas faces dos sistemas sociais, seja em nível das idéias, das leis, das crenças religiosas, dos códigos morais, etc. Segundo ele, essa simplificação permitiria seu enfoque sobre as relações verdadeiramente fundamentais que determinam a direção geral em que move os sistemas sociais.

Segundo Marx, a base material é formada por forças produtivas(que são as ferramentas, as máquinas, as técnicas, tudo aquilo que torna viável a produção) e por relações de produção(relações entre os que são proprietários dos meios de produção e aqueles que possuem apenas a força de trabalho).Ao se desenvolverem, as forças produtivas trazem conflitos entre os proprietários dos meios de produção e os não-proprietários destes. A evolução de um modo de produção para outro, para os socialistas científicos, ocorre a partir do desenvolvimento das forças produtivas e da luta entre as classes sociais que predominam em cada período histórico. No prefácio do livro “Contribuição á Crítica da Economia Política”, Marx identifica na História, de maneira geral, quatro estágios de desenvolvimento dos modos de produção: o Asiático (comunismo primitivo), o Escravista (da Grécia e de Roma), o Feudal e o Burguês, sendo este o último baseado nas diferenças de classes, uma vez que segundo Marx, tais diferenças seriam substituídas pelo Comunismo, sem classes, sem Estado e sem desigualdades sociais. Este era o grande objetivo do Socialismo Científico. Este defende a idéia de que classe burguesa, surgida a partir da dissolução do modo de produção feudal, detém o poder econômico e consequentemente, utiliza o Estado como meio de manutenção desse poder.

Como os proletários não detêm os meios de produção, eles são obrigados a vender sua força de trabalho aos capitalistas ,tendo como função reproduzir capital e gerar lucros a esses. A exploração do proletariado objetivava a aprimoração do trabalho não pago, surgindo então o conceito de “mais-valia”, que se dá quando o que os trabalhadores produzem pode ser vendido por mais do que eles recebem como salário.

O Materialismo Dialético é outro método utilizado por Marx em sua análise da realidade social.Com este método, ele busca definir a História e as estruturas sociais como resultados de “contradições internas”, uma vez que todo e qualquer sistema econômico “traria em si os germes de sua própria destruição”. Ele destaca como exemplo o próprio capitalismo,que implica na existência de duas classes sociais antagônicas(burguesia e ploretariado), sendo que deste conflito resulta o Socialismo. Deste modo, Marx considera a luta de classes o “motor” da História.

O pensador alemão foi também o criador da uma “Ciência Política”, posto que teorizou as relações entre Poder e classes sociais. Ele procura apreender e explicar o modo de produção capitalista em sua “economia política”. Para Marx e Engels, o capitalismo seria vítima da contradição que existe entre propriedade privada e produção coletiva. O resultado disso seria a exploração do trabalho ( de onde vem o lucro), a concentração de renda nas mãos dos capitalistas e a crescente pauperização da classe operária. Tudo isso levaria á eliminação das classes médias e á fortificação da luta de classes, cujo clímax seria a Revolução Socialista que levaria o proletariado ao poder.

Marx revolucionou a maneira de se interpretar a ação dos homens na História, abrindo ao conhecimento uma nova ciência e aos homens uma nova visão filosófica de mundo…”Os pensadores antigos se limitaram a pensar a História, agora é tempo de transformá-la.”(Karl Marx)

CONCLUSÃO

Este trabalho teve o intuito de expor as principais idéias do Pensamento Socialista Moderno, enfocando suas duas correntes( o Socialismo Utópico e o Socialismo Científico) e destacando os principais representantes de cada uma delas.

A partir do momento em que as duas vertentes do Socialismo foram explicitadas e as idéias e considerações de seus pensadores expostas, objetivou-se também deixar claro as distinções existentes entre ambas as correntes. Enquanto o Socialismo Utópico buscava a perfeição da sociedade, a “sociedade ideal”, e atribuía á consciência humana a explicação da História, o Socialismo Científico vem romper com esse idealismo explicando o processo histórico pela existência do homem, tentando descobrir, identificar e explicar quais eram os reais motivos geradores das discrepâncias entre as classes, detectando meios para resolver o conflito em questão , considerando a situação econômica em que foi criado. Como pôde ser observado ao longo deste trabalho, os utópicos rejeitavam, condenavam e criticavam o sistema econômico capitalista, mas não analisavam a fundo no que ele consistia, tampouco como surgia a exploração da minoria privilegiada detentora do poder econômico sobre o proletariado.

Não obstante, tivemos a preocupação de colocar também que, apesar da grande importância do Socialismo Científico, que causou uma revolução no universo das propostas de construção de uma nova sociedade, o Socialismo Utópico não deve ser menosprezado em sua importância, mesmo porque foi fonte inspiradora de Marx e Engels em suas formulações, em suas teorias, através de idéias sobre lutas de classes, sobre o proletariado, sobre as desigualdades entre exploradores e explorados, etc.

Apesar do socialismo real, pregado por Marx e Engels, nunca ter vingado de fato em país algum ( a exemplo da ex-URSS, de Cuba, da China, etc.), as questões relacionadas ao Pensamento Socialista não devem ser consideradas ultrapassadas, mesmo levando-se em conta a distância no tempo em que foram pela primeira vez colocadas em pauta, posto que são importantes para retomarmos e repensarmos algumas discussões sobre determinadas questões teóricas e por conseguinte, práticas, sobre desigualdade entre classes, exploração econômica, má distribuição de renda, etc., uma vez que esses são “fantasmas” que nos assombram até hoje e cada vez mais.

BIBLIOGRAFIA  

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  • RUSS, Jacqueline, O Socialismo Utópico. Ed. Universidade Hoje.
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