Explicando o capitalismo de forma pura e simples

O sistema capitalista tem por forma fundamental a separação entre o capital e o trabalho. A relação entre capital e força de trabalho se baseia na exploração da segunda pelo primeiro. A acumulação de capital, a partir da exploração da força de trabalho, é o objetivo da economia capitalista. Assim, a classe capitalista “produz” e vende riquezas visando o lucro, e não as necessidades da sociedade. O capitalista não está interessado no que a sociedade precisa, mas nas riquezas que a produção pode lhe gerar.

Uma sociedade é definida como capitalista quando as relações de produção e trabalho dominantes em sua economia se baseiam na compra da força de trabalho de uns para a ampliação do capital de outros, por meio da venda dos produtos do trabalho pelo capitalista. Diversos tipos de relações de produção podem conviver em uma mesma organização social, mas em todas as sociedades da história, sempre houve a predominância desse ou daquele tipo de relação de trabalho. Na idade média, por exemplo, dominavam as relações feudais de produção, mas também era possível encontrar outras formas de se organizar o trabalho, sobretudo na Baixa Idade Média. Da mesma forma, no mundo contemporâneo, encontramos várias maneiras de se organizar a base material. Nas cooperativas de produção, que podem ser encontradas em diversos países, vemos no trabalho associado e na autogestão sementes de socialismo. E em alguns países, como o Brasil, ainda existem pessoas submetidas a algum tipo de trabalho escravo. Entretanto, nem o trabalho associado, nem o trabalho escravo, são dominantes no mundo contemporâneo. O que reina é a forma burguesa de organização. Assim, chamamos países como o Brasil de capitalistas porque as relações materiais dominantes nessas nações são essencialmente burguesas.

 

A burguesia e o proletariado constituem os dois principais grupos sociais do sistema vigente. Os primeiros elementos da classe capitalista começaram a se formar na idade média, ainda sob o sistema feudal. Os burgueses eram inicialmente uma classe de pequenos comerciantes que habitavam os burgos, pequenas vilas surgidas na Baixa Idade Média que se desenvolveram entre os castelos senhoriais e as muralhas que os protegiam. Era um grupo social composto por pessoas que haviam deixado a vida no campo para se dirigirem às cidades e que, por falta de alternativas, acabaram se dedicando ao comércio e à produção artesanal. Com o passar do tempo, essa classe de pequenos produtores e comerciantes se ligou à manufatura e, mais tarde, revolucionou o mundo com os avanços tecnológicos e o surgimento da grande indústria. O papel positivo da burguesia no desenvolvimento histórico, assim como sua transformação em classe parasita e desnecessária após a execução de sua missão, são descritos por Marx e Engels no Manifesto Comunista.

 

A origem do proletariado moderno é bem mais recente. Surgiu com a revolução industrial. Assim como a burguesia, o proletariado também se originou do campo. O termo proletariado vem de “proletarii”, palavra usada pelo imperador Sérvio Túlio para descrever os cidadãos pobres. A única utilidade desses cidadãos no império era gerar filhos (proles) que mais tarde integrariam o exército. A palavra também foi empregada em referência aos camponeses pobres que, durante o feudalismo, se dirigiam para as cidades sem nenhuma riqueza. Chegavam nas áreas urbanas apenas com seus filhos. No século XIX, socialistas como Karl Marx passaram a utilizar o antigo termo romano para descrever a classe operária.

 

O capitalismo moderno, surgido no século XVIII, é o sistema econômico do nosso tempo. Nele, o trabalhador vende a sua força de trabalho, que também é uma mercadoria, para a classe capitalista, proprietária dos meios de produção, em troca de um salário. Aqui é preciso compreender que essa relação, diferente do que as teorias burguesas pregam, não se baseia na liberdade de ambas as partes, mas no domínio que o capitalista tem sobre os meios de produção. A venda da força de trabalho não é uma manifestação de liberdade, e sim uma necessidade. Por que o trabalhador vende sua força de trabalho? Para viver. Isto é, para não passar necessidades, para não morrer de fome. O trabalhador possui a sua força de trabalho, sua capacidade de gerar riquezas, de produzir valores de uso. Entretanto, ele não tem o controle sobre os meios que permitem a materialização dessas riquezas, meios que estão nas mãos da classe opressora da sociedade contemporânea.

 

O processo da produção capitalista e da produção de capital foi explicado pelo filósofo e economista Karl Marx, o homem a quem a classe trabalhadora mais serviços deve. Marx expôs o modo de produção capitalista em suas conexões históricas e como necessário para uma determinada época da história, demonstrando também a necessidade de sua queda. A partir da descoberta da mais-valia por Marx foi possível compreender que o regime capitalista de produção e exploração da classe trabalhadora tem por forma fundamental a apropriação de trabalho não pago; que o capitalista, mesmo quando compra a força de trabalho do trabalhador por todo o seu valor que representa como mercadoria no mercado, dela retira sempre mais valor do que lhe custa e que, como disse Engels, braço direito de Marx, essa mais-valia é, em última análise, a soma de valor de onde provém a massa cada vez maior do capital acumulado nas mãos das classes possuidoras e exploradoras. (1)

 

A exploração não é caracterizada pelo salário, e sim pela apropriação de trabalho não pago. O trabalhador que ganha X é explorado e o trabalhador que ganha Y também é explorado. (2) A força da classe capitalista é alimentada pelas mercadorias produzidas pela classe trabalhadora. Os produtos do trabalho da classe proletária são, ao mesmo tempo, as armas de seus inimigos. O capitalismo separou o produtor do seu produto. O trabalhador cria algo que lhe é estranho, sobre o qual não possui domínio algum. A mercadoria nada mais é do que materialização do trabalho. E mesmo com todo o avanço da tecnologia, não foi possível para a classe capitalista abrir mão dessa força natural. Essa grande descoberta de Marx, em conjunto com o materialismo histórico e dialético, é tão importante para a história e para as ciências sociais e econômicas como a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin é para as ciências biológicas.

 

A classe trabalhadora, entretanto, não pode se libertar dessa situação através do atual sistema ou de qualquer reforma. A conquista do poder político e o uso desse poder para a construção de uma nova sociedade, baseada na propriedade coletiva, na gestão democrática e na cooperação operária, é a única porta que pode levar os trabalhadores para a sua libertação. O produtor só é verdadeiramente livre quando controla os produtos do seu trabalho. Diferente das classes oprimidas dos tempos passados, a classe trabalhadora moderna só pode abolir a sua condição de opressão e exploração por meio da abolição de todas as classes. (3) A união política e econômica da classe trabalhadora se torna fundamental para uma ação que derrube toda a ordem social existente.

 

Entretanto, a destruição e a crise ideológica dos movimentos e grupos revolucionários da classe proletária, surgida com o fim do socialismo do leste europeu, causou um atraso e um grande prejuízo no movimento operário que tem impedido qualquer ação da classe trabalhadora que possa por fim ao capitalismo. A reconstrução desse bloco revolucionário é a condição necessária para a reconstrução do movimento operário. Sem isso, o capitalismo, mesmo com todas as suas crises e suas ações opressoras, permanecerá de pé. O capitalismo é um sistema maléfico. Entretanto, nenhum sistema da história caiu sozinho, mas somente através da ação revolucionária. Sem tal ação, o capitalismo seguirá existindo. O socialismo não resolve todos os problemas da humanidade, mas abre as portas para que os homens salvem nosso planeta de todo o mal gerado pelo capital, que nada mais é do que um sistema baseado no roubo.

REFERÊNCIAS
(1) Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, Engels
(2) Trabalho assalariado e Capital, Marx
(3) Miséria da Filosofia, Marx
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